domingo, 23 de agosto de 2026

Jardim da Amazônia, o retorno (última parte)

 Após as buscas ao anambé-preto, saímos, às quatro e meia da manhã, para procurarmos uma outra ave fantástica, o socoí-zigue-zague.

Fêmea do anambé-preto

Esqueci de compartilhar as fotos da fêmea na primeira parte



Partimos rio abaixo, somente com a luz das estrelas. A escuridão da floresta e o infinito do espaço nos teletransportava. Sobre as águas do Rio Claro, o mistério da noite nos envolvia.   

Mas a contemplação logo virou atenção. Ligamos as lanternas e escaneando as margens do Rio Claro, seguimos com as forças da correnteza e da fé. 

Primeiro encontramos uma garça-real. Até tentei fazer uma foto rápida mas percebi que conseguir um registro naquele completo breu, lutando contra o balanço e a correnteza, necessitaria de mais tempo, então achei melhor focar no nosso objetivo. 

O próximo encontro foi com outra ave espetacular, o arapapá. 

Como a pressa é inimiga da perfeição, só consegui um assombração.

Arapapá

Outra garça-real! 

Encontramos mais ardeídeos de noite do que de dia, realmente sensacional essa nossa passarinhada noturna.


A lua surge, formando uma silhueta.  

As sombras definem a floresta e proporcionam a foto com o celular


Nada é certo na natureza, a não ser a morte. Naturalmente, a expectativa cresce a cada curva do rio. Até que o Marccelo diz a palavra mágica, "achei"!!!

E com maestria consegue posicionar o barco na única "janela" que havia para fotos, compensando a correnteza e ainda segurando as duas lanternas para que eu pudesse fotografá-lo.


O raro socoí-zigue-zague


Com a satisfação em conquistar esse lifer tão desejado, seguimos até um paraná para ver se encontrávamos outro socoí.

Sobre as calmas águas, noite ainda escura, vi um brilho forte! "Tem um bicho ali", exclamei de pronto. 

Ao aproximarmos, um urutau se define na escuridão da noite e faço uma foto que há tempos desejava, com seus incríveis olhos amarelos esbugalhados.




Ali, com o anambé-preto e o socoí-zigue-zague no cartão de memória, já tinha "ganhado a viagem". Mas outros seis lifers, entre outros encontros muito maneiros, deixaram ainda mais especial esse nosso retorno àquele paraíso amazônico.

Dentre os lifers, mais cinco aves e um mamífero, o ameaçado macaco-aranha-de-cara-preta (Ateles malek). 

Um bando desse grande primata passou sobre minha cabeça, numa correria danada, quando estava tentando outro lifer top, o uirapuru-de-chapeu-branco, que ficou só na vontade.

O contraluz muito forte não colaborou, depois percebi que deveria ter filmado com o celular



Os outros lifers foram: inhambu-relógio, arapaçu-elegante, arapaçu-pardo-de-mato-grosso, arapaçu-barrado-do-tapajós e arapaçu-de-listras-brancas-do-leste.


Arapaçu-de-listras-brancas-do-leste procurando alimento

Na festa dos lifers, os arapaçus deram show! 
Além desses quatro, registrei também o arapaçu-de-lafresnaye. E com exceção do elegante, todos num só lugar, na área da passarela, bem pertinho da recepção e que é famosa por avistamentos de outro raro primata, o parauacu. Fica a dica!




Vivenciar e contemplar a natureza faz um bem danado




Agora vamos a uma amostra das aves que rolaram dessa vez.

Saíra-mascarada




Esse mutum-cavalo desfilou na nossa frente 





Ariramba-preta (notem a má (?) formação do bico de uma delas)


A interrogação é para refletirmos. O que seria considerado má formação, ou no nosso caso, algo que fuja do considerado "normal", não poderia ser uma alteração benéfica? No caso da ariramba, ter o bico levemente curvado para cima poderia lhe dar alguma vantagem adaptativa e portanto, melhores chances de passar seus genes para frente, a tal da seleção natural. No nosso caso, não ser "normal" não poderia propiciar melhores condições de viver num sistema doente? Fica a reflexão.



Segue o desfile das estrelas.


O belíssimo limpa-folha-do-buriti à beira do Rio Arinos

Belíssimo Rio Arinos


Araçari-de-bico-riscado




Capitão-de-cinta


Meu primeiro encontro não tão distante com o extraordinário anambé-pombo macho

Já tinha feito bons registros da fêmea e do jovem, mas o macho com essa sua incrível indumentária ainda me faltava. Um dos maiores passarinhos (ordem: passeriformes) amazônicos, sendo o anambé-preto o maior, não só de lá como de todo Brasil. 
Esse registro e os do araçari-de-bico-riscado e do capitão-de-cinta foram feitos da pequena torre próxima do "laboratório".




À tarde na torre, pausa para descanso, um pouco de observação e muito calor 
Foto: Sica



Casal de trocal


Muitas pombas por toda área que acessamos a pé, principalmente no "laboratório". 
Além das belíssimas trocais, as ameçadas (!) pombas-botafogo e muitas, muitas pararus-azuis, um dos mais lindos columbídeos brasileiros (mas nenhuma "deu mole").


Pombas-botafogo
Como pode uma pomba que ocorre em praticamente toda Amazônia estar vulnerável à extinção?!


Esse papa-formiga-do-igarapé pintou sem playback no "laboratório"



Benedito-de-testa-vermelha, pica-pau mais comum por lá

Banho de sol do benedito


Catatau






Ariramba-da-mata caçando próximo da famosa passarela do parauacu 



Pica-pau-chocolate encontrado também na área da passarela



Cantador-ocráceo, numa trilha que chegamos de barco





Xexéu



Nem todas aves amazônicas são extremamente ariscas. Entre as dóceis, acostumadas com o movimento dos hóspedes, está o xexéu. 

Além de muito bonito, é muito comunicativo, inclusive ótimo imitador. Pude observá-lo imitando um falcão-caburé, que ouvia quase todos os dias antes de amanhecer, numa mata próxima.

Sobre as ariscas, dois lifers me escaparam. Mal consegui colocar os olhos neles, o uirapuru-de-chapeu-branco e o formigueiro-de-cauda-baia.

A reserva da Jardim da Amazônia possui uma peculiaridade, há uma área de manejo florestal, que é a mais próxima da pousada e que acessamos a pé. Foi nessa área que passarinhamos quase todo o tempo. Pareceu-me que a pouca estatura do dossel facilita a observação dos bichos de copa, em compensação os de sub-bosque ficam mais cascudos. Uma mata mais baixa entra mais luz e quanto mais luz, mais plantas, o que dificulta achar "janelas".





Belíssima saíra-de-cabeça-azul, a mais comum por lá, na borda da mata









Iraúna-grande procurando parasitas


No "laboratório", área aberta no meio da mata onde há alguns poços de criação de peixes, flagramos essa cena de simbiose da iraúna-grande com a capivara. 
Já tinha visto em fotografia esse comportamento da iraúna-grande e desde então desejava presenciar tal cena.


Fotografando as curicas, pela última vez antes de partir
Foto: Sica



As curicas-de-bochecha-laranja são o principal espetáculo da Jardim da Amazônia





















Nos galhos e talhos estão sua medicina







Encontrá-la fora do cajueiro, dentro da mata, é outra emoção














Finalizo com a foto mais especial da viagem, a que eterniza os 79 anos completados de uma vida dedicada às artes e às aves, ao lado de sua grande companheira, a adorável Sica.
Parabéns, Tavinho Moura!!! Que venham muitas outras primaveras repletas de aves e passarinhos!!!


sábado, 15 de agosto de 2026

Jardim da Amazônia, o retorno

 Recebi um convite irrecusável do grande amigo e ícone da cultura mineira Tavinho Moura, e lá fomos nós, comemorarmos seu niver pelo segundo ano consecutivo na famosa Jardim da Amazônia, um verdadeiro oásis amazônico.

A postagem anterior aqui do blog foi exatamente a da primeira viagem que fizemos para lá. Na ocasião, outro grande amigo nos acompanhava, o Guilherme Serpa, que hoje está se recuperando de um grave aneurisma. Melhoras, Serpa!!! Tu tá fazendo muita falta, parceiro! 

E para completar a equipe, a adorável Sica, esposa do Tavinho e notável pesquisadora da UFMG. 

Dessa vez o excelente guia Jhonata estava numa missão no sul do Pará, então fomos assessorados principalmente pelo guia Marcelo, que não mediu esforços para conseguirmos nossos intentos.

Chegamos à tarde e, para nossa surpresa, uma das grandes estrelas do lugar nos recebeu. 

Melhor boas-vindas impossível! 





Ano passado, a rara e fantástica curica-de-bochecha-laranja só pintava de manhãzinha, nos famosos cajueiros localizados em frente à recepção do hotel. 

O que aliás, já é algo incrível, não é?! Já pararam para pensar nessa conjunção astral?!

Quem plantou aqueles dois cajueiros sabia que eles atraíam aquela espécie?! Os bichos da Amazônia são os mais ariscos que conheço, como elas se acostumaram com a presença humana tão próxima?! Os cajueiros ficam muito próximos não só da recepção, como de um dos quartos do hotel. E detalhe, há uns outros dois cajueiros na área do hotel, em áreas mais remotas, afastados da movimentação habitual de um hotel bem frequentado, mas elas incrivelmente parecem que só frequentam aqueles dois! 

Outro detalhe bem legal, não são os frutos que as atraem. Elas comparecem todos os dias, ao que tudo indica, para se desintoxicarem de frutos venenosos dos quais se alimentam na mata. As danadas buscam a resina, que extraem principalmente dos galhos e dos talos das folhas. 

Tive a impressão que dessa vez elas estavam mais acostumadas com a presença humana do que no ano passado, permitindo aproximações impressionantes de observadores extasiados.










Notem o chão abaixo dos cajueiros cheio de folhas verdes


Dessa vez o Tavinho tinha uma meta ambiciosa, encontrar o "bruxo" da Amazônia, o extraordinário anambé-preto. E, claro, foi muito fácil embarcar nessa com ele, afinal essa fantástica espécie é sonho de birders de todo mundo. 

Como ele bem disse, uma das aves do paraíso brasileira, juntamente com o também amazônico galo-da-serra, que registramos em 2015, em outra memorável viagem.

Para tanto madrugamos, tomamos o café que é servido às cinco e meia e por volta das seis já estávamos subindo o Rio Claro. 

Marcelo, nosso guia, explicou que nossa chance era chegar bem cedo em seu território, nesse caso teríamos alguma oportunidade de encontrá-lo na copa de alguma das árvores da mata ciliar do rio, seu habitat.

Depois de uma hora rio acima, atentos a qualquer silhueta ou movimento, entramos em um território conhecido. 

Naturalmente a atenção e a tensão aumentam. 

A cada curva, novas águas renovavam a esperança do encontro, mas já começavam a se mesclar, com a ansiedade do desencontro. 

Olhos de águia na copa das árvores! 

Não sabia onde terminava o território daquele anambé, um dos maiores passeriformes brasileiros deve ter um território bem grande, pensei. 

Depois de muitas curvas e expectativas a mil, visualizei uma grande silhueta numa copa aberta, bem longe! Olho na câmera e, para euforia geral, não só o encontramos, como era um casal!


Encontrar um casal gerou a expectativa de presenciarmos cenas incríveis

Apesar da distância, conseguimos observar aquela cena de grandes documentários de natureza e que deu o apelido de "bruxo" ao macho dessa extraordinária espécie. Num espetáculo de pura magia, a transformação ocorre bem diante dos olhos estupefatos da privilegiadíssima plateia. Sua cabeça desaparece sobre um penacho que a cobre e uma extravagante "gravata" cresce até ultrapassar o próprio corpo da ave, nenhum outro mago no mundo faz isso!


A fêmea está logo abaixo, atrás dos galhos



Infelizmente, a grande distância que nos separava dessa cena incrível não propiciou melhores registros, mas não faltou gratidão por vivenciar esse fantástico e exclusivo espetáculo.



Equipe retornando com a felicidade do sonho realizado



Cenas do próximo capítulo: