sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Rapinantes Diurnos do Quadrilátero Ferrífero, um artigo, um sonho

 Ave amigos!

Hoje, com grande alegria, compartilho com vocês um momento pra lá de especial desses últimos 40 anos de paixão pelas aves de rapina.

Tudo, pra variar, começou com uma águia. Na época ainda "chilena" (Buteo melanoleucus), e que mais recentemente (e apropriadamente) passou a se chamar "serrana" (Geranoaetus melanoleucus). 

Naquela época, pré-internet, qualquer conhecimento sobre nossas aves de rapina era preciosíssimo. Lembro-me que um dos meus programas favoritos, depois do futebol e, claro, do "raptorwatching", era visitar bibliotecas em busca de informações e imagens dos nossos rapinantes. 

Com raríssimas exceções (geralmente espécies mais icônicas, como a harpia), a grande maioria das espécies não passava de breve verbete enciclopédico. 

Sem informações, muito menos fotos, encontrar um artigo inteiro sobre uma ave de rapina era algo indescritível. E foi assim que, por volta de 2008, conheci o grande pesquisador Luiz Salvador Jr., através da publicação de seu inolvidável artigo que tornou famosas as águias-chilenas da serra do Curral. 

Doze anos depois, a mesma águia, na mesma serra


Quem diria que um dia eu pudesse estar do "outro lado"?... Que de estudioso sedento de conhecimento, pudesse virar colaborador para o ainda pouco conhecido mundo das aves de rapina? E que isso ainda aconteceria com um dos pesquisadores que sempre foi referência para mim?...

É... o mundo dá voltas... e às vezes elas nos elevam qual poderosa térmica.


Águia-serrana, reina soberana na serra do Curral

Apesar dos muitos anos de amizade virtual, conheci pessoalmente o Salvador poucos dias antes da publicação do nosso artigo que acaba de ser publicado: RAPINANTES DIURNOS (AVES: ACCIPITRIFORMES E FALCONIFORMES) DO QUADRILÁTERO FERRÍFERO, MINAS GERAIS, BRASIL. Foi o primeiro artigo que participo como autor, graças ao grande Luiz Salvador Jr., que transformou o meu lazer em ciência, inserindo meu nome na ornitologia.

Foi um encontro fantástico, exatamente onde tudo começou, na serra do Curral, com a imponente águia-chilena. 


Num mergulho vertiginoso e alucinante em nossa direção



Essa parceria com o grande Salvador está só começando! Já existe outro excelente artigo a caminho, além de outros grandes projetos despontando. 

Só tenho a lhe agradecer pela confiança, pelas oportunidades e pela valorização do meu "trabalho", meu irmão camarada!

Agradeço à Janine, minha esposa, pelo making of e pela paciência em campo



Parceria promissora

PS: Quem desejar o artigo favor deixar o email nos comentários

domingo, 9 de agosto de 2020

Passarinhar, a melhor saída II

 Já há algum tempo, através da internet, o Fábio Barata convidou-me para conhecer as aves de sua região. Como já estávamos fechados com a Trilha dos Tucanos (que só abre quarta), aproveitamos a janela de três dias para conhecermos Peruíbe, onde minha família poderia curtir uma praia sossegada enquanto eu e o Fábio "corríamos atrás" do ameaçadíssimo papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis). Demos sorte, pois apesar do inverno, rolou um praião, com temperaturas em torno dos 30 graus!  

O voo do passarinho que mais amo


A grande estrela do litoral sul de SP está restrito às suas restingas e a uma mínima área do Paraná, em regiões que sofrem grande pressão devido à ocupação humana.

O Fábio contou-me que os próprios pesquisadores do papagaio afirmam que sua região é a melhor para observá-lo. Realmente foi batata, né Barata? 

Primeiro, ao alvorecer, pudemos contemplar o espetáculo de uma grande revoada próxima a um dormitório. O Fábio estimou uns 70 indivíduos! 

Depois fomos para outro ponto certeiro, pena que pousaram nos galhos mais altos da capororoca (Myrsine l.) e partiram antes que o sol os atingisse. Mesmo assim fiquei satisfeito em flagrar um comportamento que muito nos aproxima:

Love's in the air


Com esse super lifer, ficou faltando somente uma espécie para atingir a simbólica meta de 1100 aves fotografadas. E o Fábio fez de tudo para alcançá-la, parecia que queria mais do que eu.rs Mas a saracura-lisa e o saí-de-pernas-pretas (praticamente as últimas espécies que faltavam pra mim na região) não colaboraram. A saracura fez jus à fama e não deu as caras. O saí, devido ao calor, não estava na baixada. De qualquer forma agradeço ao grande Fábio Barata por sua boa vontade e esforço.

Depois de uma deliciosa comida caseira fomos ao Mochileiros Hostel e Pousada, onde o Fábio recebe birders de todo mundo, atraídos principalmente pela estrela local. 

Lá, um comedouro muito bem frequentado rendeu ótimas fotos, destaque para a belíssima gralha-azul, que de acordo com o Fábio, provavelmente se trata de espécie diferente da que ocorre no sul do país.

Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), um bando pinta sempre na hora do almoço
Pica-pau-verde-barrado (Colaptes melanochloros)
Guaxe (Cacicus haemorrhous)

Obrigado por tudo Fábio, até a próxima!


No dia que fomos para a Trilha dos Tucanos (TT) o tempo mudou. Uma frente fria chegou com tudo, causando queda de temperatura e uma fina chuva contínua. Mas nada que atrapalhasse. Talvez tenha até ajudado.

Logo que chegamos fomos muito bem recebidos pela Patrícia, proprietária da TT. Após breve conversa amistosa, ofereceu a chave que, na TT, une dois mundos separados há incontáveis milênios: uma banana!

Juntei-me ao João Miguel e, a partir dali, duas crianças, com as chaves dos portais, adentraram o recinto onde a magia acontecia.

Com as chaves em riste, espécies selvagens, que vivem sob as leis da Natureza, ou seja, mantendo seus instintos de sobrevivência, quebram a barreira entre nossos mundos e levemente pousam sobre nossos corpos, que ao sentir tamanha energia, aumentam sua vibração.

E não foi somente uma sensação pessoal, de um observador de aves experiente que nunca passou por aquilo. O João, mesmo com sua personalidade serena, exclamou, durante aquela experiência sobrenatural, que estava tremendo. A partir dali convenci-me de que fiz a coisa certa. Como diz um velho amigo, valeu a pena, as asas, o voo!


Esse sorriso, essa sensação, não tem preço
   

Enquanto tentava melhorar meu registro da jacutinga e do macuco, o João listou um monte de bicho legal que comeu em sua mão! Teve até irara e caxinguelê! Entre as aves, além dos periquitos-ricos (que eram a grande maioria), saíra-sete-cores, catirumbava, araçari-banana, tiriba-de-testa-vermelha, pimentão e tucano-de-bico-verde fizeram a alegria daquela criança, que depois dessa viagem, certamente entrará para o nosso time. 

Ajeitando as coisas pra ir embora, elas vieram se despedir
Sentiram o cheiro das bananas que levávamos, explicou Patrícia

Despeço-me com alguns dos registros dessa rápida, porém intensa visita à incomparável Trilha dos Tucanos. Mas antes, deixo aqui registrado minha eterna gratidão à Patrícia e ao Marcão, pelo belíssimo trabalho realizado e pela recepção que nos fez sentir como parte da família.

Araçari-poca (Selenidera maculirostris) alimentando-se do palmito-juçara (Euterpe edulis)

Araçari-banana (Pteroglossus bailloni)

Tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus)


Pica-pau-de-cabeça-amarela (Celeus flavescens)


Tiê-de-bando (Habia rubica)
Juriti-gemedeira (Leptotila rufaxilla)

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Passarinhar, a melhor saída

Bem amigos, depois de meses de confinamento e tudo que estamos passando, duas semanas desconectado de todo esse pandemônio, em meio ao que de melhor nos restou da Mata Atlântica, foi como oxigênio para um cérebro prestes a desfalecer. Precisava demais. E recomendo.

Começamos em Ubatuba. 

Sediados no excelente Itamambuca Eco Resort, seu bem frequentado e bem localizado (luz difusa com fundo escuro) comedouro proporcionou fotos que me deixaram muito satisfeito, principalmente da saíra-militar e do saí-verde, este último pouco comum nos locais onde comumente passarinho no estado do Rio e que há muito desejava fotos que fizessem jus à sua beleza. 

Saíra-militar ou saíra-de-lenço



Fêmea


Saí-verde macho



Fêmea clicada no extraordinário sítio do Sr. Jonas


Mas sem dúvida a maior atração ornitológica de Ubatuba, principalmente para fotógrafos, é o sítio do Sr. Jonas. 

Praticamente na porteira do sítio já começamos a visita com o pé direito, encontrando, para minha grande felicidade, o raro vira-folha-de-peito-vermelho, primeiro dos três lifers da viagem. 
 
Acompanhado do meu querido filhote, o João Miguel, estava convicto de que se não o engrenasse de vez nessa viagem, meu sonho dele se tornar passarinheiro ruiria, afinal, o tempo, como um passarinho, saltita e voa. 
 
Para tanto, preparei um roteiro transcendental, finalizando com a transposição da barreira que nos separa dos animais selvagens. 
 
O plano de voo consistia em levá-lo a dois dos melhores comedouros do Brasil, finalizando com o contato físico direto, abundante e vertiginoso com elementos fantásticos de nossa fauna. Bote certeiro no coração de qualquer criança. 
 
Começamos bem, com ele mostrando seu talento fotográfico inato, realizando, com uma velha superzoom, o difícil registro do vira-folha. Depois de publicada, a imagem até recebeu elogios de uma lenda viva da ornitologia brasileira, o Sr. Johan Dalgas Frisch.


Vira-folha-de-peito-vermelho

No sítio, mascarado e mantendo a devida distância, enquanto conversava com o Sr. Jonas (uma prática que já foi corriqueira), fitava pra lá de satisfeito o Joãozinho sentado no cantinho da varanda, quietinho, em silêncio, se esbaldando nos clicks que podem ser conferidos no Wikiaves (João Miguel P. de Souza). Ah, se os caros amigos leitores quiserem me ajudar, aí vai uma dica, ele curte ler os comentários.

Nossa visita foi de médico, mais proseei que fotografei, mesmo assim deu tempo de fazer alguns registros que desejava. Além do saí-verde fêmea, um close do estupendo tiê-sangue e uma espreguiçada do fantástico topetinho-verde, a espécie que mais desejava fotografar nos comedouros/bebedouros do famoso sítio.

Esse gostou da fila da tinta vermelha

 


O topetudo topetinho não afina pros grandões




Digno de menção também foi o auxílio que tive do Wandel Buzoni, apresentando-me à também famosa fazenda Angelim, onde infelizmente o patinho-gigante não "deu as caras", apesar de ouvirmos seu chamado. Muito obrigado pelo apoio e pelas informações meu amigo!
 
Amanhecer na foz do rio Itamambuca, em Ubatuba, uma das cidades mais preservadas do Brasil

 
Partimos para a serra de Itatiaia, onde nossa querida e saudosa amiga Márcia tão bem nos recebia. Impossível não relembrar dos momentos felizes que desfrutamos juntos. 
 
 
Encontro inolvidável da Ecoavis em Rio Piracicaba/MG, a Márcia foi nossa convidada de honra
 
 
De certa forma, ser guiado pelo Hudson Martins foi como uma singela homenagem, pois lembro-me dela o incentivando no início de sua carreira. A Márcia falava super bem dele pra mim, elogiando-o como guia, em clara demonstração de sincera, valiosa amizade. Convidou-me para uma de suas primeiras guiadas, numa das primeiras vezes que fui a Itatiaia, ocasião quando o conheci. Atualmente, o Hudson é um dos guias mais conhecidos do Brasil, apresentando nossa Natureza a birders do Brasil e de todo mundo.

Deixo aqui essa nossa última foto, como eterno agradecimento pelo carinho que sempre dispensou a mim e a toda minha família. Saudoso abraço querida amiga, mais cedo ou mais tarde nos reencontraremos!
 
Janeiro do corrente ano, nosso último encontro nesse plano
 

Deixei com o Hudson o itinerário, então ele achou por bem começarmos com o solitário jovem frango-d'água-carijó que pintou em Resende. Logo depois partimos para outra serra, a da Bocaina, belo lugar que ainda não conhecia, um dos melhores para fotografar o raro negrinho-do-mato.

Frango-d'água jovem, destaque para o dedo médio bem maior que o tarso


O Hudson cantou a pedra: esse bicho é melhor de tarde, lá pelas quatro horas. E não deu outra! De manhã nada. Às quatro, bingo! 
 
O simpático cantor daqueles bambuzinhos ornamentais nos encheu de alegria quando o ouvimos pela primeira vez. E o ponto alto do show rolou quando pousou no bambu estrategicamente posicionado e ainda com um talinho no bico, não sei se se alimentando ou mostrando quem manda no pedaço.

Negrinho-do-mato


Habitat do negrinho-do-mato-com-bambuzim-bunitim

O reencontro com a tesoura-cinzenta também foi legal

 
Já em Itatiaia, os destaques foram os beija-flores e as arapongas-do-horto, que estavam se alimentando nos jardins do hotel Donati.

Fadinha no mulungu, belezas que se completam


Topetinho-vermelho no Donati? Procurem o Tiago "Sereio", tá sempre ligado no bicho


Araponga-do-horto, bichinho doido


Assim terminou nossa primeira semana de férias. 
 
Despedimos da serra e partimos novamente pro litoral, mas dessa vez litoral sul de SP, em busca de um dos papagaios mais raros do Brasil.

A Natureza recarrega minhas baterias, muita energia envolvida

Para minha sorte, a observação de aves é super recomendada nesses tempos sombrios


PS: vale ressaltar que todos os lugares visitados se adequaram ao inevitável, e esperamos transitório, "novo normal"