A evolução os levou a este modo de vida. Embora possuam a incrível capacidade de voar, preferem o chão escuro das florestas, onde astutos predadores de toda sorte: de pelos, penas e sangue frio, se especializaram em caçá-los. Eles se escondem de tudo que possua visão binocular, aquela típica dos predadores. E nós fazemos parte desse grupo.
Só há uma forma garantida de conseguirmos boas chances de fotografá-los: quebrando essa relação presa/predador. E isto demanda conhecimento, tempo, paciência, trabalho e respeito. Além de florestas preservadas, pois tais espécies são exigentes, ecologicamente falando.
No Brasil, tais condições especiais são raras, e fomos atrás delas, eu e um grande amigo, o Professor Gabriel Mello, grande fotógrafo e coautor do primeiro guia de aves com fotos do Brasil. O Gabriel também foi à caça desses fantasmas para seu próximo livro, que com certeza superará o primeiro(que já é excelente).
Nosso primeiro destino, a fantástica Trilha dos Tucanos, destino obrigatório para birders e amantes da natureza, onde o casal Marco e Patrícia fazem um trabalho espetacular, reunindo os predicados necessários para nos revelar alguns dos "fantasmas" mais cobiçados pelos fotógrafos de natureza.
Graças aos novos amigos Marco e Patrícia, é com extrema satisfação que apresento aos senhores alguns destes espíritos da floresta:
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Juriti-gemedeira |
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Uru |
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Tovacuçu, bicho dos mais invisíveis que conheço |
A Trilha dos Tucanos não só nos revela fantasmas, mas também outras maravilhas de nossa fauna, na intimidade que só comedouros e bebedouros muitíssimo bem frequentados podem proporcionar:
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Araçari-poca |
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Araçaris-banana |
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Tucano-de-bico-verde |
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Irara |
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Pica-pau-de-cabeça-amarela, conhecido localmente como Ana Maria Braga |
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Beija-flor-rubi |
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Tecelões |
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Saíra-sete-cores |
Saíras, sanhaçus, tiês, catirumbavas, periquitos, tietingas, tecelões, pimentões, pica-paus, beija-flores, passarinhos aos montes. Comedouros e bebedouros disputados o dia inteiro! À noite também tem movimento, pacas costumam frequentar as cevas. Nas trilhas, antas têm hora marcada na madrugada fria e pumas já foram registrados em armadilhas fotográficas.
Havia também uma cerejeira que para nossa sorte estava florida, palco enfeitado de um verdadeiro frenesi alimentar:
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Saí-azul |
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Topetinho-verde fêmea |
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Ao lado da cerejeira, este belo lifer, o sanhaçu-pardo, deu um raro mole |
Mas não é tudo pessoal. Outra grande atração da Trilha é a grande quantidade de palmitos-juçara em torno da sede e dos aposentos. Os frutos desta espécie de palmeira ameaçada de extinção atraem inúmeras espécies que por sua vez são dispersoras de suas sementes. A mais famosa talvez seja a jacutinga. Bela e também muito ameaçada, não deu as caras. A maioria dos frutos que achamos ainda não estavam totalmente maduros, mas mesmo assim encontramos dois pavós que procuravam alimento nas juçaras e que nos proporcionou um dos momentos mais emocionantes da viagem.
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Pavó, o maior passarinho brasileiro |
Outro momento também muito legal, daqueles que só a imprevisibilidade pode nos proporcionar, foi o casal de sabiás-cica encontrado pela Patrícia bem ao lado do nosso chalé.
Saio do chalé ainda sonolento, depois de uma necessária sesta depois do almoço, quando vejo a galera com suas teles apontadas pra cima da minha cabeça. OPA! Acordei de vez!
Demorou mas achei pelo menos a fêmea antes do casal partir.
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Fêmea de sabiá-cica, um dos psitacídeos mais interessantes, confunde-se facilmente com a vegetação |
Teve ainda outro grande lifer, o raríssimo pica-pau-de-cara-canela que achamos muito longe, o que não possibilitou um registro a altura de sua beleza, e o anambezinho, outro que vive no alto das árvores mais altas, também não rolou boas fotos, mas encontrá-lo é sempre muito legal.
Para terminar essa viagem pela Trilha dos Tucanos, parabenizo mais uma vez e agradeço imensamente o casal Marco e Patrícia por manterem este paraíso e nos proporcionar vários momentos inesquecíveis que infelizmente não cabem em um post.
Gostaria também de deixar um grande abraço a duas famílias de passarinheiros que compartilharam com a gente momentos especiais, os Goulart de Brasília e os Bianchini de Piraju. É muito legal ver famílias inteiras unidas, curtindo a inigualável "caçada" moderna às aves. Foi um imenso prazer conhecê-los, amigos!
Com aquele gostinho de quero mais, os caça-fantasmas partiram para a próxima missão, nada pouco ambiciosa por sinal.
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Paisagem da Trilha dos Tucanos |
O sempre bem informado Gabriel sabia que um ser vivente das trevas havia escolhido uma árvore dentro da cidade de Taubaté para passar o dia. Com a ajuda do grande Marco Cruz, a quem agradeço imensamente a fundamental ajuda, descobrimos a tal árvore. Mas, para o nosso azar, o grande Mocho-diabo não estava lá. O Marco nos contou que desde que ele foi descoberto ali, há cerca de um mês, em outros dois dias ele também não dormira naquela árvore, o que nos deixou confiantes para o dia seguinte, quando passaríamos em Taubaté novamente rumo às nossas casas.
O Marco ainda gentilmente ficou de nos informar se o mocho-diabo estaria lá no dia seguinte e assim nos despedimos, rumo à pousada Oikos do grande Josiel Briet.
Chegamos já noite e depois de tentarmos o murucututu(isso mesmo, P. perspicillata), que o Josiel nos disse que viu e escutou há uma semana e nos deliciarmos com uma boa comidinha caseira, fomos dormir, exaustos.
Último dia de viagem e cheios de esperança, partimos para o primeiro fantasma do dia, a sanã-vermelha. Não demorou muito e pudemos ver até duas fora da intransponível vegetação em que elas vivem.
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Sanã-vermelha, graças ao louvável trabalho do Josiel |
Felizes partimos confiantes para o fantasma que, como o tovacuçu, é um dos mais tinhosos e também um dos que mais queria fotografar:
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Pinto-do-mato, deu mais trabalho que a sanã e proporcionou o momento mais sensacional da viagem |
Bem amigos, para não me estender demais tive que omitir encontros e passagens muito legais dessa viagem, mas podem crer, cada bicho teve sua história, alguns até com lances SHAZAM!
E ainda havia o mocho-diabo! E como se não bastasse, o mocho estava lá! O Marco Cruz havia nos dado a boa notícia. Então mais do que satisfeitos, nos despedimos do Josiel, agradecidos pela oportunidade de fotografar duas de nossas aves mais difíceis. Amigos, fica a dica então! Sanã-vermelha e pinto-do-mato, com tanta facilidade, acredito que só com o grande Josiel.
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Na pousada Oikos do grande Josiel Briet Foto: Josiel Briet |
Já em Taubaté, lá estava ele, um "monstro"! Acho que o mocho-diabo só perde em tamanho pro jacurutu, a maior coruja das Américas. Que bicho bruto! E louco! Assim termino esse post, com a imagem dele, "el mocho diablo", que junto com o pinto-do-mato, fechou com chave de ouro essa viagem.