Meu filhote, no alto de seus 6 anos, querendo iniciar-se no camping e meu desejo de passarinhar num lugar que o amigo Gabriel Mello indicou na querida Pirenópolis, em Goiás.
O local é uma fazenda que há décadas pertence à família do simpático Nirlen, um jovem senhor que se orgulha em manter vivo o nosso sofrido Cerrado. Só isso já seria digno de nossa mais profunda admiração, mas o nosso mais novo amigo, o Seu João (um de seus apelidos que nós adotamos), não só se preocupa com a preservação do Cerrado como também fala com muita intimidade das aves que ocorrem no Balneário Praia Grande. Assim é conhecido seu atrativo. Uma área de camping com belas piscinas naturais, cercada por uma exuberante mata ciliar.
A propriedade de 77 hectares está inserida numa região ainda bem preservada do sertão goiano. O rio das Almas, desde sua nascente, não conhece qualquer tipo de dejeto humano até chegar ao Balneário. Suas águas nos convidam a algo praticamente impossível nos dias de hoje, sorvê-las deseducadamente, sem nenhum tratamento.
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Sobre o rio das Almas uma gameleira de 250 anos |
Apesar de estarmos no período das férias, éramos os únicos a desfrutar de toda aquela natureza. Seu João nos disse que não faz propaganda, tem um público seleto que faz o famoso e eficaz boca-a-boca. Assim consegue manter aquele pedacinho do paraíso da melhor forma, com o mínimo impacto possível.
A rusticidade e a natureza do local nos integram de tal maneira que saímos de lá com a alma lavada. Parece que a vida fica mais leve. Com certeza é um lugar onde conseguimos recarregar nossas energias.
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Durante buscas ao socó-boi-escuro |
Bem, falemos dos bichos. O local abriga um ninho do raro socó-boi-escuro. Apesar de não estar ativo, havia uma grande esperança em encontrar o precioso ardeídeo. Clarinha e eu fomos até a cachoeira Renascer, onde ele costuma ser encontrado, conforme relato do Seu João.
No caminho um bicho grande saiu voando da beira do rio até uma árvore! Só o percebi rapidamente em voo, a copa o encobriu. Será que era ele?! Falei com a Clarinha que tinha tudo para ser o socó, mas a breve visão que tive do shape estava mais para um rapinante.
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O coração a mil, as pernas vacilantes e os olhos atentos enfim descobrem um belo gavião-pernilongo |
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Clarinha e a cachoeira, beleza pura... |
O socó-boi-escuro ficou para uma próxima, o lifer da viagem foi mesmo um fantasma do Cerrado.
Dominando a paisagem sonora crepuscular, tive a satisfação em ouvi-lo e a frustração de não fotografá-lo, em 2013, no Pantanal. A bem da verdade, praticamente não o tentamos, a profusão de bichos não nos permitia perder tanto tempo com uma só espécie (ainda mais com tão ampla distribuição).
Apesar de pensar o contrário, não foi tão difícil registrá-lo no Balneário. Na segunda tentativa e depois de alguns minutos de playback, o bicho atravessou a estrada com relativa calma. Que sensação boa...
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Jaó, uma das vozes mais marcantes do sertão |
Digno de nota também foi nosso encontro com a magnífica águia-cinzenta. A segunda maior águia do Brasil está em perigo de extinção e estima-se que hajam poucas centenas em vida livre. Vive em áreas abertas do Brasil e de outros países fronteiriços. Imaginem a sorte que é então encontrar um bicho desses pousado na beira de uma estrada. Há 30 anos, sempre que estou viajando, fico atento, alimentando a esperança de ter essa sorte. E foi justamente indo para o paraíso do sr. Nirlen que ela sorriu pra mim.
Estávamos no Km 80 da BR 040, já em território goiano. A estrada era duplicada, minha esposa estava dirigindo quando vi um bichão pousado numa grande torre. Adrenalizado, fiquei de olho para ter a certeza de que era ela, para que valesse a pena arrumar um retorno. Quando vi o penacho não tive mais dúvidas, retornamos o mais rápido possível.

Com sua índole fleumática, não se importou com nossa presença. Fiquei muito feliz não só por reencontrar essa que é uma das minhas espécies favoritas, mas principalmente por apresentá-la à minha família (mesmo percebendo que eles não possuíam um pentelésimo da minha empolgação kkk).
Voltando para o Balneário Praia Grande, tenho que fazer coro com o Gabriel, é um lugar com grande potencial para o birdwatching! E também um ótimo lugar para quem deseja fazer um camping privado, mas o mais selvagem possível (era exatamente o que estava procurando para o meu filho).
Lembrando que fui com minha família (todos adoraram) e portanto as passarinhadas ficaram em segundo plano, mesmo assim rolou vários registros interessantes:
A presença constante e marcante do bico-de-brasa na área de camping é perene alegria para nós, observadores encantados com seus elegantes voos, pousos à meia altura e com sua intrigante vocalização. Foram nossos únicos vizinhos nos três dias acampados. Tanto aqui no Rio, quanto em Pirenópolis, tenho uma vizinhança nota dez!
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Bico-de-brasa ou chora-chuva-preto |
O canto metálico - cancã - prenuncia outra figura marcante da área de camping. As belas rapineiras dos incautos campistas chegam em bando e agem sem cerimônias.
Bastou um minuto de desatenção para as gralhas-cancãs investirem no queijo, amendoins e bananas, chegando a rasgar o invólucro do queijo e dos amendoins para pilhá-los (melhor elas que os macacos-prego, que de vez em quando aparecem no camping, mas somente atrás dos frutos das árvores que nos fornecem sombra e embelezam o lugar).
O que sobrou do queijo dei para o Faminto (um dos cães de guarda do camping) e o que sobrou das bananas coloquei sobre o telhado do local onde deixávamos alguns mantimentos, mesmo local onde as gralhas nos saquearam, na esperança delas continuarem se alimentando das frutas. Contudo, para minha surpresa, elas ignoraram as bananas e continuavam com seu intuito criminoso, mas dessa vez sem sucesso, pois já havíamos tomado as devidas precauções. Tal interação já é divertida para um marmanjo como eu, imagina para meu filhote. Com certeza esse camping será inesquecível para ele!
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A face de um celerado |
Outra atração do local é o fantástico udu-de-coroa-azul, que inclusive tem hora marcada. Por volta das 18 horas ele aparece no restaurante para jantar. Mesmo sendo um convidado especial, mantem sua característica discrição. O que tem de lindo, não tem de exibido.
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ISO alto e superexposição para tirá-lo do seu lugar favorito, as sombras da mata |
Outra estrela do Balneário (mas que não tem hora marcada e nem estava atendendo ao seu chamado) é candidato a ave mais bela do Cerrado.
Estava conversando com Seu João enquanto ele arrumava nosso chuveiro quando notou uma movimentação próxima. Sem sinal de nada, no Balneário Praia Grande nos conectamos à natureza e compartilhamos euforia. Imaginem ver um uirapuru-laranja enquanto tomamos banho!
No mesmo lugar, sobre os chuveiros, o anambé-branco-de-rabo-preto aparecia com certa frequência.
A maria-ferrugem também é figura frequente nas trilhas.
Um dos habitantes mais belos (e de personalidade forte) que encontramos com certa frequência foi o pica-pau-de-topete-vermelho. As fotos dessa viagem que mais gostei foram a dele e a da próxima espécie.
A espécie que encontrei que mais me surpreendeu foi a pomba-trocal. A única foto que tinha desse bicho fiz na Hiléia Baiana, a quilômetros de distância. Não sabia que ela ocorria no Cerrado. Parece que os bichos que vivem no Cerrado são menos ariscos que os da Mata Atlântica.
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Imensa euforia em encontrar esse belo e arisco columbídeo dando mole |
Vou ficando por aqui pois a lista é bem longa, mas em breve eu e o Gabriel Mello criaremos uma para que os birders interessados possam conhecer um pouco mais o que poderão encontrar. E com certeza encontrarão muitas outras! O Balneário Praia Grande esconde ainda muitos tesouros.