Uma viagem de menos de uma semana à Chapada Diamantina rendeu tantas fotos e "causos" que daria pra fazer um livro, mas vamos tentar finalizá-la agora.
Claro que muito ficará de fora, mas o que importa é deixar o recado: em fevereiro, a floração da calhandra-vermelha, do gervão e companhia torna a Chapada Diamantina o melhor destino para
birders no Brasil, principalmente devido ao power trio: beija-flor-marrom, gravatinha-vermelha e beija-flor-vermelho.
Deixo aqui algumas dicas para quem curte fotografá-los em voo: as primeiras horas da manhã são as melhores, pois o intervalo entre um voo e outro, em busca de néctar, é menor, aumentando as probabilidades. Vale lembrar que não adianta chegar muito cedo pois a luz ainda não estará ideal, o guia saberá a melhor hora (e repito, recomendo os grandes Thalison Ribeiro e Geiser Trivelato, ambos "testados e aprovados" rs). Para fotos em voo particularmente utilizo ISO alto e prioridade de abertura, mas é só uma sugestão.
Aproveitando as magníficas condições, fiquei posicionado entre o território de dois beija-flores-vermelhos, aumentando assim as possibilidades. Dessa maneira - e claro, algumas horas em pé com o equipamento no braço - consegui, no último dia, apesar de resfriado e exausto, alguns registros que me deixaram muito satisfeito, como aqueles que publiquei na primeira parte desse relato e outros que "garimpei" depois.
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Beija-flor-vermelho na flor do gervão, sua predileta |
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Praticamente um x-bird, esse beija-flor parece um mutante, assumindo diversas formas e cores, a seu bel-prazer |
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Acabei focando mais no beija-flor-vermelho, uma espécie magnífica que te desafia a cada click |
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O não tão mais enigmático beija-flor-marrom |
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E o gravatinha-vermelha completando o power trio |
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Paciência é a alma do negócio/Foto: Clara Botto |
No "jardim dos beija-flores", apelido que demos aos belos e floridos campos rupestres da Chapada, frequentemente nos dispersávamos, pois tínhamos muitas opções e alguns objetivos diferentes.
Certa vez, estava ao alcance da vista de Tavinho e Sica, quando o Tavinho me acenou efusivamente. Fiquei encasquetado e saí em disparada, obviamente diminuindo a marcha ao me aproximar. Discretamente ele me mostrou o bicho que a Sica havia achado e que eles não conheciam.
Respondi, ainda mais encasquetado, que também nunca tinha visto aquela espécie! Essa é uma das maiores emoções que podemos ter em campo, encontrar um bicho totalmente desconhecido! Sinto-me como um astronauta encontrando um novo mundo!
"Caraca! Que bicho é esse?!!!" Sussurrei buscando registrá-lo da melhor forma possível. "Parece uma corruíra-do-campo de barriga amarela!!!" "Será uma espécie nova?!!!" kkk que barato!
Vendo a movimentação diferente, nosso guia se aproximou e desvendou o mistério, era a maria-corruíra, espécie rara do cerrado, um dos três
lifers que fiz nessa viagem.
Deixo aqui meus agradecimentos à nossa querida Sica, por nos proporcionar inolvidável momento.
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Euscarthmus rufomarginatus, a maria-corruíra |
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Encontramos a sp. em dois pontos, em campo rupestre e em campo sujo |
Outro capítulo digno de nota foi nosso encontro com o papa-formiga-de-sincorá, um dos dois notáveis e ameaçados endemismos da Chapada Diamantina (já falamos do outro, o gruneiro).
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Papa-formiga-do-sincorá (Formicivora grantsaui) macho |
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Fêmea registrada em 2015, durante expedição em busca da rolinha-do-planalto, com o Wagner Nogueira |
Muito interessante foi encontrar praticamente no mesmo lugar e na mesma hora um papa-formiga-vermelho (
Formicivora rufa). Os ornitólogos dizem que são espécies sintópicas, ou seja, que ocorrem no mesmo lugar. Podemos dizer que são "primos" que moram juntos.
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Fêmea de Formicivora rufa, particularmente não conseguiria distingui-la de Formicivora grantsaui |
Já disse alhures que estamos na época dos filhotes/jovens na Mata Atlântica.
Percebemos que na Chapada Diamantina também.
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Cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana) alimentando seu filhote |
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Filhote de sebinho-de-olho-de-ouro (Hemitricchus margaritaceiventer) estava acompanhando os pais |
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Beija-flor-vermelho (Chrysolampis mosquitus) jovem |
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Esse jovem corrupião (Icterus jamacaii) aparecia todo dia na pousada para comer figo |
Alguns podem estar se perguntando o que difere o filhote do jovem.
Vi certa vez no Wikiaves que o que os difere é a dependência dos pais. O jovem já consegue "se virar" sozinho, enquanto o filhote necessita dos pais para sobreviver.
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Uma das menores aves brasileiras, estrelinha-ametista (Calliphlox amethystina) jovem |
E por falar em estrelinha, encontrei novamente um inseto que o imita. Trem doido!
Bem amigos, para mim é sempre um prazer contar para vocês um pouco do que rolou, mas vou ficando por aqui para não me estender demais. Espero que tenham gostado das fotos, dos causos e das aves da Chapada Diamantina. Um forte abraço e até a próxima, se Deus quiser!
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A Chapada Diamantina deixará saudades/Foto: Clara Botto |