terça-feira, 8 de março de 2016

Back to REGUA

AVE AMIGOS!!!

A REGUA, Reserva Ecológica de Guapiaçu, é uma RPPN localizada aos pés da Serra dos Órgãos que protege uma das últimas matas de baixada no Estado do Rio de Janeiro.




Súdito da rainha Elizabeth II, Nicholas Locke, o proprietário da REGUA, realiza um trabalho digno de aplausos de todos nós brasileiros. Com recursos próprios e de seus patrícios, ele já reflorestou vários hectares em um trabalho contínuo de aquisição de novas terras e plantio de mudas de árvores nativas, além de recuperar uma importante área alagada que hoje preserva o raro jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), entre tantas outras espécies de nossa fauna. Também apoia pesquisas fornecendo uma boa infraestrutura para cientistas. Enfim, um exemplo a ser seguido! Deixo aqui meus parabéns ao Nicholas e à sua família que também trabalha neste grande projeto.

Em 2012 conheci a REGUA, nessa ocasião conheci pessoalmente também o amigo Gabriel Mello, que, diga-se de passagem, me guiou com maestria. Pois bem, mais de 3 anos depois retornei àquele paraíso, com o grande Brunão, meu primo parceiro de passarinhadas.

Conforme combinado chegamos às 7 horas(uma dica, vale a pena chegar pelo menos uma hora mais cedo), porém o guia terceirizado que o Thomas(filho do Nicholas) havia arrumado pra gente não pode ir na última hora e ficamos sabendo quando chegamos que teríamos que nos virar sozinhos. Mas o sempre precavido Brunão levou o playback e então partimos rumo uma das trilhas da Reserva, a Trilha Verde, conforme dica do irmão do Gabriel, o grande Daniel Mello, que também guia no local. Aliás, infelizmente nenhum dos irmãos Mello estava disponível para nos guiar lá, e claro, não poderia deixar de indicá-los, pois além de conhecerem muito bem a REGUA e sua avifauna, realizam um excelente trabalho há anos na região. Trabalho que culminou no excelente e inédito guia Aves da Serra dos Órgãos e Adjacências.

Após as boas vindas do atencioso Thomas, pegamos alguns quilômetros de estrada de terra para chegar ao começo da Trilha Verde.

E logo no começo um bando misto com muitas saíras-sete-cores, além de saí-azul, tiê-galo e saíra-galega deu as boas vindas. Uma sete-cores em especial me chamou atenção pois se equilibrava em um tronco e pegava alguma coisa em suas reentrâncias. Alimento talvez?!




Seguindo pela trilha a mata ia ficando cada vez mais alta e fechada.
Deparamo-nos com formigas-correição, mas incrivelmente nem uma ave as seguia.
Um tinamídeo se e nos assustou, e em rápida correria sumiu sem que pudéssemos ao menos identificá-lo.

Continuando, escutamos algo na serrapilheira e descobrimos um vira-folha fazendo jus ao seu nome popular(desculpem a má qualidade do vídeo mas achei interessante mostrar o comportamento, o tamanho deste vídeo só me permitiu postá-lo como link):

https://www.youtube.com/watch?v=1XKYhKtVxpo

Em seguida um clássico exemplo de quão difícil é a fotografia de aves:

Ia ficar muito legal, se o modelo colaborasse

Estamos em um período conhecido como "descanso reprodutivo" das aves. É um tempo de silêncio na mata, tempo que o playback nem é tão necessário já que as aves não dão muita bola para intrusos etc. Mas como a mata é boa de bicho, eles iam aparecendo à medida que avançávamos na trilha.

Abre-asa


Tiê-do-mato-grosso

Capitão-de-saíra
Chegamos a mais de mil metros percorridos da Trilha Verde, procurávamos principalmente o patinho-gigante, espécie ameaçada, lifer pra mim. Mas não foi dessa vez e a manhã acabara, o que nos fez retornar para o almoço que aliás estava uma delícia, famosa comidinha da vovó.

Sem pausa para descanso, já que era um bate-e-volta e eu tinha um compromisso às 19 horas no Rio, partimos para o famoso mini-pantanal da REGUA.

Época ruim, horário ruim, mas mesmo assim, nosso esforço rendeu alguns registros.

Havia muitas chocas-listradas, quase fiz a foto que eu queria desta espécie, mas como aquela do arapaçu, só ficou na vontade. Usando o playback, dificilmente conseguimos uma situação tão boa quanto ao acaso:

Sou fã desta família

Agora, a ave que mais abundava mesmo no pantanal era o eloquente frango-d'água:



Havia um grande bando de anus-coroca, há muito tempo não via essa interessantíssima espécie. Mas ariscos, essa foi a melhor foto que consegui:

Não deram a mínima para o playback

A espécie que mais queríamos ver no pantanal era o excêntrico arapapá. Não foi fácil localizá-lo, o Brunão é que o encontrou do outro lado da lagoa, bem longe, quando já tínhamos até perdido as esperanças de encontrá-lo:

Raridade preservada na REGUA

Achei estranho não termos visto nenhum anatídeo, então nos "finalmentes" eis que pinta um casal de asas-brancas dando um breve show:





O Brunão adorou o lugar e já me convidou novamente pra voltar, o que não deve tardar em acontecer.

Bem pessoal, fico por aqui parabenizando novamente o Nicholas e sua família por preservar, em prol da humanidade, esta importante reserva!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Carnaves 2016

Ave!

Este ano tive oportunidade de aproveitar o melhor Carnaval do mundo(aliás o único que ainda tenho disposição de frequentar), o da minha querida cidade, Rio Piracicaba/MG. Nada de multidões, confusões, só alegria compartilhada entre familiares e amigos. E claro, como não poderia ser diferente(e que me perdoem os amigos foliões), em duas oportunidades estávamos lá, eu e meu fiel companheiro tio Maninho Camarão, o Timá, às 3 da matina, acordando (enquanto os súditos do Rei Momo se retiravam)para dois "bate-e-volta" muito esperados.

O primeiro, uma visita ao precioso Parque Estadual do Rio Doce(PERD) com os amigos Henrique Junior e Thiago Franco, com a possibilidade de uma esticada até a gloriosa Iapu do Leandro Moreira.

O PERD é verdadeiramente um tesouro, trinta e tantos mil hectares de mata de baixada, a variante mais ameaçada da Mata Atlântica. Só conheço outro remanescente de grande porte deste tipo de mata, localizado em Sooretama/Linhares, no ES. Não por acaso só temos registros recentes do raríssimo e enigmático Neomorphus geoffroyi dulcis nestas duas localidades.

Sempre que estou no PERD tenho aquela ótima sensação de que tudo pode acontecer.

Bem, desde que descobriram o raro e ameaçado fruxu-baiano(Neopelma aurifrons), nas matas primárias do PERD, fiquei com aquela vontade de ir lá conferir. Então entrei em contato com os amigos Celso de Castro e Henrique Junior, que conhecem tudo na região. Infelizmente o Celso viajaria no Carnaval, mas o Henrique não, e gentilmente se colocou à disposição para me apresentar a raridade. O grande Thiago Franco se juntou à expedição e lá fomos nós!

Adentramos o Parque pela estrada da ponte queimada, ouvidos e olhos atentos. Mata primária não tem muito bicho, ao contrário do que podemos imaginar, mata em regeneração tem mais quantidade, mas estávamos procurando "qualidade" e isso só uma mata primária imensa como a do PERD pode nos proporcionar. O PERD é praticamente o último refúgio de várias aves mais exigentes, "de baixada", em Minas Gerais.


Não demorou para o Henrique, que conhece muito bem as aves de lá, nos alertar sobre a presença próxima de papagaios-moleiros(Amazona farinosa), espécie considerada a maior do gênero.

Este grande e arisco papagaio vive nas copas de florestas densas, sendo mais encontrado na Amazônia, já que na Mata Atlântica, além da perseguição do tráfico, restam poucas matas grandes o suficiente para a perpetuação da espécie.


O único registro que tinha deste papagaio feito em 2013, Linhares/ES


Tentamos detectá-lo nas altas copas mas sua camuflagem mais uma vez funcionou perfeitamente. Então o Henrique acionou o playback e logo um papagaio-moleiro pousou em cima da gente e começou um desfile nota DEZ, apresentando seus mais belos adereços de forma suntuosa. Não trocaria esta breve apresentação por uma noite em claro na Sapucaí.







Foi um abre-alas nota DEZ!

Então seguimos adentrando a mata do Parque até que nosso guia, o Henrique, pediu pra parar: parô!

Bando misto! Ala diversificada com vários e diferentes componentes que desfilam pela mata esbanjando simpatia, em reluzentes e coloridos trajes.

Bando misto é assim, se a gente quiser algum registro legal tem que focar, senão fica só no deslumbre de ficar procurando bicho. E focamos numa espécie das mais interessantes que compunham o bando e que, conforme o Wikiaves, em Minas, o PERD é seu único refúgio, o caneleiro-bordado(Pachyramphus marginatus).


Caneleiro-bordado fêmea


Outro "tesouro perdiano" que pintou foi o beija-flor-safira(Hylocharis sapphirina).


Em MG só há registros na região do PERD (Wikiaves)

Bem, também haviam lifers: a choquinha-chumbo e o fruxu-baiano.

O fruxu foi muito tranquilo... chegamos em seu território, mata primária, alta, onde já havia estado uma vez com o próprio Timá e escutado o esturro de uma onça-pintada. Respondeu muito bem ao playback e sem explorarmos da sua boa vontade deixamos, felizes, nosso recém conhecido amigo emplumado.


O raro fruxu-baiano

Já a choquinha-chumbo, também rara e ameaçada, no PERD é localmente comum, achamos várias delas ao longo do caminho percorrido, mas tímida, não quis saber de se exibir e o máximo que consegui foi uma daquelas "fotos de lifer".

Choquinha-chumbo lá nas alturas


Depois de muita folia, acabou-se a manhã e no caminho de volta, eis que o Henrique me dá a boa notícia: o Leandro Moreira, que até então iria trabalhar o dia inteiro naquela segunda de Carnaval, acabara de ligar avisando que estaria liberado depois do almoço. Perguntei pra Timá sobre sua disposição e apesar de exaustos pelo excesso de calor, mosquitos e poucas horas de sono, resolvemos pegar mais algumas dezenas de quilômetros e enfim conhecer a famosa anhuma do Leandro.

Despedimos dos amigos Henrique Junior e Thiago Franco, agradecendo-os pela grande oportunidade proporcionada e partimos para terras nunca dantes navegadas.

Chegamos na pitoresca Iapu e quando já estávamos terminando de almoçar na praça que era nosso ponto de encontro, o Leandro aparece e facilmente nos identifica pela indumentária pouco usual mesmo para o Carnaval.

Gente finíssima o Leandro, nos contou sua história interessantíssima. Graças àquele par de anhumas, que surpreendentemente adotou seu "quintal" para viver o ano inteiro, o Leandro virou um birder. Não é pra menos mesmo, a anhuma é uma espécie extraordinária, ave migratória de grande porte, verdadeiro unicórnio, cujo "chifre", conforme está no Wikiaves, chega a 12 cm de comprimento.

O Leandro não mediu esforços para nos apresentá-las. E para dar aquele "tempero", só as encontrou no último lugar onde costumam ficar. Saímos então em disparada! No caminho ainda tive o prazer de conhecer seu pai que estava trabalhando próximo ao local. A poucos metros dali, num brejo, lá estavam elas! E para minha alegria, não só um par, mas uma bela família!

Foi a primeira reprodução observada desde que o Leandro descobriu a espécie no local, há mais de três anos. Ao que tudo indica, aquele par de anhumas resolveu fixar mesmo o território ali o ano todo, contrariando seus hábitos migratórios.

Família de Anhima cornuta


O filhotão só é denunciado pelo chifre (um tal de espículo córneo) menor, o indivíduo do meio creio se tratar do macho. Contemplando esta foto, fico imaginando como ele faz para se alimentar com este adorno que, diga-se de passagem, é nota DEZ em originalidade.

Ainda fui agraciado com uma pena de anhuma, que já está devidamente instalada ao lado de uma outra que tenho de harpia.

Gostaria de agradecer ao grande Leandro, "o cara" da anhuma, por tudo! Muito obrigado meu amigo!


Dois dias depois, lá estávamos nós de novo, de pé às três da matina para chegar ainda em boa hora ao nosso destino, a serra da Gandarela.

Assim conhecemos a serra da Gandarela


Desde que soube da luta para se criar o Parque Nacional da Serra da Gandarela tive vontade de conhecê-la. Demorou alguns anos, apesar da pouca distância de minha cidade. Aproveito aqui para agradecer ao amigo e ornitólogo itabirano Juliano Silva, que já trabalhou na Gandarela e conhece como poucos as aves da nossa região, a oportunidade de conhecer aquele paraíso.

Timá e Juliano contemplando a sensacional serra da Gandarela

O PARNA da Serra da Gandarela, juntamente com outras reservas contíguas, como a RPPN do Caraça e a Floresta Estadual de Uaimii, formam o segundo maior continuum de Mata Atlântica do Estado, ficando atrás só do PERD, além de proteger um dos biomas mais ameaçados do mundo (ainda mais ameaçado que a Mata Atlântica), a Canga Ferruginosa.

Mas, infelizmente, interesses privados conseguiram retirar uma área estratégica para a natureza (onde se formam várias nascentes, p. ex.), da área original do Parque, definida pelos próprios técnicos do ICMBIO. Com só um objetivo, explorar o subsolo, até esgotar toda a água, toda a vida.

Não consigo entender como que é possível, em plena crise hídrica, um trem desses! Como disse uma sertaneja muito simples e sábia, ontem na TV: o homem consegue fazer tudo, menos água.

Bem, foram quase três quilômetros descendo uma parte florestada da serra e, claro, subindo também. E apesar dos mais de 1300 metros de altitude, o calor estava sufocante, principalmente na subida. Aliás, parece que o calor, somado a um provável descanso reprodutivo de algumas espécies, deixou a floresta um tanto silenciosa, mas mesmo assim, com sua expertise, o Juliano contabilizou mais de 70 naquela manhã, inclusive uma nova para o município de Santa Bárbara(uma das cidades abrangidas pela Gandarela) no Wikiaves: o vira-folha(Sclerurus scansor), que aliás, mais uma vez, não deu mole para fotos.

Mas, na minha opinião, o ponto alto desta breve visita foi o encontro com o topetinho-vermelho(Lophornis magnificus), o menor e um dos mais belos beija-flores brasileiros, espécie que sempre quis encontrar na nossa região, onde é muito raro, contando com pouquíssimos registros.

Jovem fêmea detectada pelo Juliano na copa de uma árvore
Se alguém souber do que ela está se alimentando... 


É isto, mais uma vez agradeço aos amigos que fizeram do Carnaves 2016 um evento DEZ, nota DEZ!!!

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Ave Santa Catarina! A Pedra Encantada

Preliminarmente, acho legal fazer algumas considerações.

Os tinamídeos são uma família de aves terrícolas que servem de caça a uma grande variedade de predadores, entre os quais alguns seres humanos que se prestam ainda hoje a abatê-las, a despeito das leis que as protegem.

Eurico Santos, em 1952, já asseverava em seu "Da Ema ao Beija Flor":

"...verificamos que, descoberto o valor culinário destas aves(tinamiformes), estava-lhes decretado o extermínio."

" Também usam caçá-las pela traição, emboscados em choças feitas de ramagens, ou trepados em giraus, atraindo-as por meio de pios... Esse hábito de caçar à traição, disfarçado no mato, aprendemos com o nosso íncola, que se envolvia em ramagens verdes e assim iludia a caça."

Bem amigos, essa introdução foi para aqueles que ainda não conhecem as aves desta família, para que tenham uma ideia da dificuldade que é simplesmente colocar os olhos nelas.

São aves super ariscas, evoluíram para serem fantasmas, para viverem ocultas, fugindo da visão binocular dos seus predadores. E o homem, como se sabe, sempre foi um grande inimigo a se temer.

Então, sem muito trabalho, o máximo que normalmente se consegue não foge muito deste registro que fiz no Parque do Zizo, em 2011:

Acreditem, é um inhambuguaçu

Mas com muito trabalho e determinação, o nosso amigo Vilde "criou" a "Pedra Encantada", possibilitando não só a fotografia dessas espécies, mas alcançando uma qualidade nunca antes vista nesse país.

Servindo-se de técnicas de caça, está democratizando, por via de imagens espetaculares obtidas por ele e por tantos outros fotógrafos, o acesso ao conhecimento de várias espécies cinegéticas que ainda sofrem com a destruição do seu habitat, e assim, por conseguinte, colabora com a preservação das mesmas, pois não se preserva o que não se conhece.
Acima de satisfações pessoais, este seu trabalho é digno de grandes honrarias.

Bem, ao relato!

Depois que o Vilde me deixou no local, tentei seguir da melhor forma possível suas orientações, sendo o mais discreto possível. Fiquei praticamente imóvel o tempo todo, permanecendo em absoluto silêncio, com a câmera apontada para a gloriosa Pedra Encantada, em uma espera que de tão empolgante, parecia entorpecer os sentidos.

Uma doce hora se passa e quando começou a pintar uma certa angústia (afinal, apesar de todo o excelente trabalho do Vilde e da imponente mata à minha frente, nunca podemos esquecer da imprevisibilidade das aves), o primeiro ente de nossas matas aparece, um dos columbídeos mais excêntricos que conheço!

O coração cisma em sair pela goela, a respiração acelera, o corpo reage teimando em quebrar o silêncio, engulo seco esforçando-me para não me deixar denunciar.

Apesar de não se tratar de um tinamídeo, era a espécie fora desta família que mais queria fotografar e a que imaginava ser a mais difícil das que estavam frequentando ultimamente o local. Também muito arisca, daquelas que ficamos pensando se algum dia conseguiríamos sequer alguma foto, mesmo que do "naipe" da do inhambuguaçu acima.

Assim como chegou, a pariri (Geotrygon montana) foi embora, caminhando tranquila e silenciosamente



O tempo continua a passar, perene e lentamente, e então um canto ecoa na mata sombria, pouco depois outro, diferente do primeiro. Não sei se em algum tipo de resposta ou se pelo magnetismo da Pedra Encantada, que nesta altura, já devia estar exercendo seus poderes sobre eles. Fato é que a adrenalina correu forte nas veias! Eram o inhambuguaçu e o jaó-do-sul!

Ah... aqueles chamados... parece que são produzidos pela própria floresta...

Depois de alguns minutos de silenciosa e eufórica espera, ouço de novo, em auto e bom som, aquele incrível canto do inhambuguaçu praticamente do meu lado! PUTZ!!! SENSACIONAL!!!

Então pensei: "Tá perto pra baralho!!! É agora!!!"

Continuo na minha rotina: olho no visor, breve pausa para descanso, olho no visor, uma olhadinha bem discreta no pouco que dava para ver nos arredores, olho no visor e depois de alguns intermináveis minutos, SHAZAM!!!


O arredio Crypturellus obsoletus em uma de suas duas aparições


Depois de duas horas de espera, em que o silêncio havia sido quebrado somente uma vez, pelos clicks da pariri, o inhambuguaçu deixou a Pedra Encantada e ganhou novamente os recônditos mais sombrios da floresta.


Refeito do orgasmo ornitológico, minha esperança se voltou para o tinamídeo mais aguardado, o jaó-do-sul, um dos big lifers da Pedra Encantada.

"Primo" bem mais raro que o inhambuguaçu, o jaó-do-sul está associado a florestas primárias, ou seja, florestas que a ação humana não provocou significativas alterações das suas características originais.

Uma das poucas vezes que eu escutei um jaó-do-sul foi no Parque Estadual do Rio Doce, um dos pouquíssimos refúgios mineiros desta espécie tão ameaçada em nosso Estado. Lembro-me que fiquei horas escondido atrás de um grande tronco caído, utilizando playback, mas o máximo que consegui foi ver uma grande silhueta que apareceu rapidamente no alto de uma elevação no chão da floresta.

Continuei minha rotina que já durava mais de duas horas, sentado, de olho no visor da câmera, uma espiadinha nos arredores, cerrando os olhos e descansando de vez em quando, mas com aquela sensação maravilhosa que só a imprevisibilidade das aves nos dá.

O que poderia acontecer?! Restava menos de uma hora para finalizar minhas observações. O inhambu-chintã, outro belo e tinhoso lifer também podia pintar, assim como a tovaca-campainha, espécie fantástica e arisca que me faltava um registro à altura de sua beleza. Os urus estavam sumidos, conforme me relatou o grande Vilde, mas um dia com certeza eles não resistirão aos encantos da Pedra e voltarão.

Enfim, das espécies que estavam frequentando a Pedra, com certeza a que mais desejava era o jaó-do-sul e eu estava muito esperançoso, pois já tinha escutado ele uma vez.

O tempo se escoava,  mas a esperança se mantinha ilesa. E, apesar do seu tamanho, o jaó-do-sul apareceu como o inhambuguaçu, totalmente silencioso, causando aquele impacto dos grandes acontecimentos imprevisíveis.

Surpreso com sua aparição quase fantasmagórica, aproveitei alguns instantes para somente contemplar aquele ser fantástico e esquivo, que poucos puderam observar daquela forma, revelando sua vida secreta que ele tão bem aprendeu a manter em milhões de anos de evolução.

Crypturellus noctivagus, também conhecido como zabelê ou jaó-do-litoral, e a Pedra Encantada à direita


É isso amigos, o que eu posso dizer pra vocês é que ficar frente a frente com estes seres mexe com a alma da gente. Observá-los em sua intimidade e poder eternizar estes momentos, revelando detalhes praticamente impossíveis de conhecer sem a magia da fotografia, não tem preço. Com certeza voltarei, atraído pela Pedra Encantada e seu incrível poder de materializar as vozes da floresta.

Por fim, gostaria de mais uma vez agradecer e parabenizar o grande Vilde pelo belo trabalho que tem feito em Joinville. Muito obrigado meu amigo, voltarei o mais breve possível!


domingo, 24 de janeiro de 2016

Ave Santa Catarina! Segunda Parte

Nosso pouso em Joinville foi no Hotel Fazenda Dona Francisca que, cercado por uma Mata Atlântica Montana, muito me impressionou pela quantidade de nossas amigas emplumadas. Claro que essa percepção foi sonora, é consenso que em florestas a audição é mais útil que a visão.

Muitos dos sons eu nunca tinha ouvido ou não lembrava ou mesmo o sotaque (isso mesmo, as aves também tem sotaque) poderia ter me confundido, fato é que apesar de nascer e crescer neste bioma, praticamente tudo que ouvia era novo. Uma euforia só!

Mas um em especial eu consegui identificar, pois num estudo prévio selecionei e estudei os possíveis lifers que poderia encontrar. Era o capitão-castanho, ave "de copa", que apesar de abundante naquelas matas, é muito difícil de fotografar, haja vista a altura das árvores.

Attila phoenicurus, bastante comum na bela mata do Hotel


Gostaria de ter tido mais tempo para explorar aquela mata, mas como todos gostamos, terei outras oportunidades pois com certeza um dia retornaremos. Inclusive conversei com o Vilde a respeito e ele me falou que já fez um levantamento das aves de lá. Cheguei até a sugerir à gerente do Hotel que implementasse o turismo de observação de aves pois aquele local realmente tem potencial.

O turismo de observação de aves é o de menor custo e pode ajudar a salvar o pouco que restou da preciosa Mata Atlântica

Bem, com exceção das duas ou três horas que explorei a mata do Hotel, tive somente duas oportunidades de passarinhar em Joinville, ambas na agradável companhia do grande Vilde, que me proporcionou uma experiência ímpar em sua famosa Pedra Encantada. Mas esta história merece um capítulo à parte.

Também fomos à propriedade do amigo Osni Munhoz que infelizmente, por motivos profissionais, não pode comparecer. Aproveito o ensejo para lhe agradecer a oportunidade. Lá o Vilde me apresentou três espécies magníficas praticamente restritas à região mais meridional do Brasil e que há um bom tempo queria fotografar:

Saíra-preciosa (Tangara preciosa)

Tico-tico-da-taquara (Poospiza cabanisi)

O sanhaçu-papa-laranja (Pipraeidea bonariensis) era a ave mais desejada e deu um show a parte. Todos os membros de sua família compareceram em um desfile cheio de expectativas que terminou com um "grand finale":

Essa jovem fêmea foi a primeira a desfilar

Logo depois apareceu essa linda fêmea com nobres ares

Depois de algumas horas de uma espera que já estava beirando a aflição, um jovem macho pintou como que para me preparar para o que estava por vir.


Quase lá 

E então, para fechar com chave de ouro, o macho adulto, com sua singular plumagem, apareceu na "prorrogação do segundo tempo", quando a luz e a esperança já estavam por um fio.


Sanhaçu-papa-laranja, em todo seu esplendor

Muito satisfeito, ficamos, eu e o Vilde, conversando sobre a vida, esperando a noite cair, para tentarmos a corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae) que vive no rancho.

O nobre Vilde não poupou esforços, mas quando não é para ser, não adianta, e a corujinha sulina também ficou para próxima, reforçando os já vários motivos para meu regresso à extraordinária Santa Catarina.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Ave Santa Catarina! Primeira Parte

Há cerca de dez anos conheci Santa Catarina. Foi a trabalho, mas saí com uma ótima impressão. Dessa vez o objetivo era as férias com a família, e a vontade do João Miguel de conhecer o Beto Carrero foi fundamental para decidir voltar. Coadjuvantes de peso também colaboraram, o histórico de minha esposa com o Estado, onde já participou de vários festivais de dança em Joinville e claro, da minha parte, conhecer a fantástica "Pedra Encantada" do grande Vilde.

Começamos pelo litoral e quando pesquisei sobre as aves de Santa Catarina para esta viagem, a maria-da-restinga (Phylloscartes kronei) foi uma das que mais se destacou naquela altitude.

Espécie ameaçada e restrita a um pequeno trecho do litoral brasileiro, do sul do estado de São Paulo ao extremo norte do Rio Grande do Sul, entrou para minha lista de prioridades desta viagem, principalmente pelo seu endemismo.

Contactei alguns amigos catarinenses e recebi uma ótima dica do Pedro Silva de Blumenau, que sabendo onde estava hospedado, indicou-me uma trilha bem próxima da pousada, a trilha da Costeira da ARIE de Zimbros.

Coincidentemente, enquanto esperava um bom dia para fazê-la, não é que a Clarinha, nobre companheira de luta, pesquisando algo pra fazer, "me descobre" a tal trilha e então me convida pra ir com ela?rs

Juntamos a fome com a vontade de comer! Então falei sobre a maria-da-restinga pra ela e seguimos rumo aos nossos objetivos, encontrar a ave e fazer toda a trilha(11 km).

Essa trilha corta uma Mata Atlântica exuberante, com muitas aves, além de rios preservados, cachoeiras e praias desertas.

No meio do percurso de ida, logo após o encontro com a maria-da-restinga
Foto: Anna Clara Paranhos Botto Maia

A poucos metros da praia, um cenário pré-colombiano
Foto: Anna Clara P. B. Maia
Maria-da-restinga, existe até um projeto visando estudá-la e protegê-la

Agradeço ao Pedro Silva, pela atenção e dicas, e à Clarinha, pelas belas fotos de nossa aventura que ela tirou sem eu mesmo saber. Foi uma bela surpresa, Cacá.

Também com ajuda dos amigos, contactei o ótimo guia Fernando Farias, de Floripa, que me guiou por sua bela cidade.

Cenário de alguns Lifers realizados na bela Floripa


Fernando à caça do curriqueiro (Geositta cunicularia)

Apesar da tentativa frustrada de registrar, no continente, outro notável endemismo, a maria-catarinense (Hemitriccus kaempferi), que junto do tradicional trânsito para entrar na ilha, nos tomou as melhores horas da manhã, alcançamos quase todos nossos objetivos, apesar do sol abrasador que nos castigava.

Foram seis lifers: dragão, chimango, piru-piru, marreca-parda, caraúna-de-cara-branca e gralha-azul.

Dragão (Pseudoleistes virescens)

Piru-piru (Haematopus palliatus)
Gralha-azul (Cyanocorax caeruleus)


Ainda em Zimbros, do lado do nosso chalé, havia uma fruteira onde fiz outros dois lifers, a guaracava-de-bico-curto e o aracuã-escamoso, além de contar com a festiva presença de algumas velhas conhecidas, como saí-andorinha, saíra-militar, peitica, juruviara, sabiá-poca, bem-te-vi-rajado etc, muitos acompanhados de seus filhotes que ensaiavam a difícil arte da sobrevivência.

Aracuã-escamoso (Ortalis squamata)


Filhote de bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus)

Praia de Zimbros, para quem procura sossego no badalado litoral catarinense


Deixamos o litoral e após um "pit stop" em Blumenau, onde além de conhecer a cidade colonizada por alemães, partimos para o Parque dos Dinossauros em Pomerode e para o Beto Carrero, seguimos para o destino mais aguardado da viagem(pelo menos pra mim rs), a Joinville da Pedra Encantada do Vilde.

A foto desse rostinho feliz foi a que mais gostei desta viagem