quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ave Bahia! Boa Nova, cidade paraíso das aves

Amigos, Boa Nova é um lugar ímpar, com uma maravilhosa história de preservação que começou por causa de uma ave, o extraordinário gravatazeiro (Rhopornis ardesiacus).

Tive o prazer em conhecer um dos principais atores desta história e que atualmente é seu protagonista. E ainda tive o privilégio de ser apresentado ao gravatazeiro pelo próprio "o cara" do gravatazeiro, o Edson Ribeiro Luiz. Para não tornar este post longo demais recomendo assistirem este vídeo que fala um pouco desta história: https://www.youtube.com/watch?v=c3fMd4zFnKk

Foi por causa dessa ameaçada e linda ave que o Edson entrou para os quadros da SAVE, ONG que representa a BirdLife International no país e que tem como missão precípua salvar da extinção nossas aves. Não tem como não tirar o chapéu pra esses caras, são verdadeiros heróis! Dedicam suas vidas ao nobre propósito de salvar o pouco que restou de nossa natureza, exatamente o que mais precisa de ajuda, nossas aves mais ameaçadas de se extinguirem, e desculpem o necessário pleonasmo, PARA SEMPRE!

Alguns abdicam-se de suas famílias, da comodidade e conveniência das cidades maiores, até de sua cultura para viverem nos locais onde as últimas aves das espécies mais ameaçadas ainda sobrevivem. E como se não fosse pouco, ainda desempenham a nada fácil missão de conscientizar os moradores locais da importância de preservar aquelas espécies, muitas vezes indo de encontro a interesses econômicos dos próprios. Parabéns Edson, parabéns todos da SAVE, admiro demais vocês!!!

Mas o que Boa Nova tem de tão especial que a tornou destino obrigatório para birders de todo mundo? Além do raríssimo gravatazeiro, Boa Nova é agraciada por uma localização geográfica especial que propiciou o desenvolvimento de um mosaico de biomas muito peculiar, e que graças a algum milagre, bastante da vegetação original se manteve de pé até o pessoal da SAVE se aportar no local e ajudar a criar o Parque Nacional e o Refúgio de Vida Silvestre de Boa Nova, com o intuito de preservar aquela rica região ecótone inserida numa das regiões mais devastadas do Estado da Bahia.

O que mais me impressionou nessa expedição que cortou a Bahia de sul a norte foi justamente esse mosaico de biomas tão díspares que encontramos em Boa Nova. Poucos minutos pela estrada que corta a serra da Ouricana nos leva da mais exuberante e úmida Mata Atlântica, ao bioma mais seco do Brasil, a Caatinga. Uma pequena faixa de cerca de 10 km separa o semi-árido do sempre-úmido. E é justamente nesta pequena faixa que encontramos o gravatazeiro, que recebeu este nome devido aos gravatás, grande bromélia que se desenvolve no solo da Mata de Cipó, variante da Mata Atlântica que faz a transição da Caatinga para a Mata Atlântica propriamente dita.


Mata Atlântica em Boa Nova

Caatinga em Boa Nova
Foto: Wagner Nogueira
Gravatá(provavelmente uma das muitas sp, perdoem-me os botânicos)

Este gravatá é típico da Mata de Cipó, e os gravatazeiros estão intimamente ligados a ele: nos gravatás eles fazem seus ninhos, encontram alimento, se refugiam dos predadores. Impossível preservar o gravatazeiro sem preservar a Mata de Cipó. Assim o raro, endêmico e belo gravatazeiro se tornou espécie-bandeira, símbolo de preservação desta ameaçadíssima fitofisionomia da Mata Atlântica, que já nasceu rara, esgueirando-se por uma pequena faixa do leste baiano.

Mata de Cipó
Área de transição

No primeiro dia flertamos com secos e molhados:

Papa-moscas-do-sertão (Stigmatura napensis)

Beija-flor-de-garganta-azul (Chlorostilbon notatus)

Choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus) casal


Topetinho-vermelho (Lophornis magnificus) fêmea

Formigueiro-do-nordeste (Formicivora iheringi)

Furriel (Caryothraustes canadensis)

Mas o segundo dia é que nos reservaria os momentos mais aguardados. Neste dia contamos com a excelente companhia do Edson, que tirou seu dia de folga para nos apresentar as maravilhas de Boa Nova.

Nosso primeiro destino foi uma trilha na Mata Atlântica do Parque Nacional, e antes mesmo de adentrarmos a mata o Edson nos apresentou um casal dos raríssimos e recém-descritos acrobatas (Acrobatornis fonsecai), que espantosamente vivem numa área degradada, mas com alguns vinháticos enormes, onde costumam fazer ninho. Esta espécie era uma das tops que eu esperava ver nesta viagem e estes foram os únicos que encontramos.

Nunca vi um passarim tão carismático, tão carinhoso uns com os outros. Muito legal como eles se interagem.






Isso que é começar o dia com o pé direito! O primeiro presente do dia que recebemos do Edson.

Logo em seguida, olha o que pinta:

Pica-pau-anão-de-pintas-amarelas (Picumnus exilis), sp típica de mata de baixada

Já dentro da trilha, uma das primeiras espécies que encontramos foi um comemorado lifer:

Trepador-sobrancelha (Cichlocolaptes leucophrus) jovem

Mais adiante, um sabiá-coleira (Turdus albicollis) bem diferente:



O familiar e belo formigueiro-assobiador (Myrmoderus loricatus)
Caburé-miudinho, lifer muito festejado

Olha pessoal, foram muitas surpresas, mesmo para o Edson, acostumado com o local, mostrando o grande potencial do Parque. Só pra citar algumas: um grande bando dos raros apuins-de-costas-pretas(primeiro registro no Wiki para Boa Nova), gavião-pega-macaco (só ouvimos, não há documentação para o Parque), tiriba-de-orelha-branca(novidade total) e espécies que podem vir a ser separadas futuramente. Enfim, um grande tesouro biológico aquele Parque.


Depois do almoço seguimos para a segunda parte deste grande dia, destinos: Mata de Cipó e Lajedo dos Beija-flores.

Na Mata de Cipó nosso anfitrião nos apresentou o gravatazeiro.

Como que sabendo que quem o chamava era seu maior defensor, um casal atendeu dando o maior show!

Macho

Fêmea vocalizando

Um encontro emocionante

Depois de tantas emoções, ótimos papos e um tanto cansados, fomos terminar o dia conhecendo o famoso Lajedo dos Beija-flores. Digno de menção o fato de que a área do Lajedo foi adquirida pela grande fotógrafa de aves Ester Ramirez e seu marido, e agora conta com proteção integral, um exemplo a ser seguido por quem pode e ama nossas aves. Parabéns, tiro o chapéu pra vocês!

Detalhe do Lajedo

Helberth Peixoto, eu, Edson Ribeiro e Wagner Nogueira, no Lajedo dos Beija-flores
Foto: Wagner Nogueira

Particularmente tinha esperança de fotografar algum beija-flor-vermelho(beija-flor mais desejado dessa viagem) atrasado para sua migração anual. Eles costumam partir do Lajedo(melhor lugar para fotografar essa formidável sp) em março e só retornam na primavera. Quase rolou, nos "finalmentes" uma fêmea foi encontrada pelo Wagner, porém não consegui fotografá-la, ficou só na vontade.

Mas para não dizer que fui ao Lajedo e não fotografei nenhum beija-flor rs:

Amazilia lactea no famoso cacto do Lajedo

Outras aves que deram show pra gente:

Barulhento(Euscarthmus meloryphus), foto boa de lifer difícil graças a expertise do Wagner

Bacurauzinho-da-caatinga (Hydropsalis hirundinacea) arrancando para mais uma correria
Este bacurau deu um show a parte! Quando todos menos esperavam, em vez de voar, como de costume fazem seus congêneres, ele saiu correndo, como um mamífero ou um crustáceo, enfim, tudo menos um bacurau.

Deixamos o Lajedo um pouco antes da hora porque uma forte chuva se aproximava, então fomos jantar e em um dos muitos bons papos que rolou, o Edson nos contou que quando ele teve em Canudos para observar as araras-azuis-de-lear (nosso próximo destino), ele presenciou uma cena incrível: uma águia-chilena(atual águia-serrana) rapinando um filhote de arara que acabara de sair do ninho! Não dá nem pra imaginar uma cena dessas...

Bem pessoal, tentei ser o mais conciso possível, para não me delongar muito, mas só nossa estada em Boa Nova renderia um livro. Há também outra possível novidade que caso se confirme ainda será revelada. Aguardemos.

Despedi-me de Boa Nova agradecendo toda a cordialidade e boa-vontade do mais novo amigo, o Edson, "o cara" de Boa Nova.

sábado, 9 de abril de 2016

Ave Bahia! A Mata do Passarinho

Ave amigos!

A Bahia é especial por vários motivos, e no tocante às aves também. Suas praias e sua cultura são bastante conhecidas do público em geral, mas o que muito poucos sabem é que a Bahia abriga aves das mais ameaçadas e belas.

Este relato é sobre uma expedição que teve como objetivo encontrar os últimos sobreviventes de séculos de destruição desenfreada causada pelo homem, para tanto contei com a ajuda de dois feras da ornitologia brasileira, os grandes amigos Wagner Nogueira e Helberth Peixoto.


Nosso primeiro destino, a Mata do Passarinho. Objetivo principal, conhecer (e com muita sorte registrar) uma das aves mais raras do planeta, o entufado-baiano (Merulaxis stresemanni).

O que dizer de uma espécie cuja população atualmente conhecida conta, na melhor das hipóteses, com 15 aves?! "Tenho que conhecê-la antes que aconteça alguma tragédia!" Foi o que pensei, já que tal população se concentra em um pequeno fragmento isolado na divisa da Bahia com Minas Gerais.

Ouvi falar que essa espécie foi redescoberta graças a uma Harpia encontrada por um primatólogo que primeiro realizou levantamentos no local. Avisado, o renomado ornitólogo Rômulo Ribon providenciou uma expedição àquela mata. Chegando lá, qual foi sua surpresa ao encontrar o já considerado praticamente extinto entufado-baiano!

Assim começou uma nobre mobilização que culminou com a criação da Mata do Passarinho, reserva atualmente aberta a observadores de aves e gerenciada pela Biodiversitas, ONG mineira que trabalha em prol da preservação de nossa natureza e que merece nossos aplausos.


Horas de estrada e só destruição. As poucas aves que encontramos foram as generalistas. Com poucas exigências ecológicas, tais espécies conseguem colonizar áreas onde a vegetação foi suprimida.

O sentimento de desolação é inevitável. Nessas horas vivenciamos a triste situação das aves endêmicas da Mata Atlântica. Não à toa é o bioma onde se encontram mais espécies ameaçadas de extinção.

E no caso do entufado-baiano não é difícil imaginar porque sua situação é tão crítica: é uma ave que vive no solo da floresta, sua distribuição geográfica é limitada por dois grandes rios, o Jequitinhonha ao sul e o São Francisco ao norte, praticamente o pouco que restou da Mata Atlântica deste trecho do Brasil só se manteve de pé por causa da cultura cacaueira que poupou as árvores da floresta mas destruiu o sub-bosque, eliminando assim seu habitat.

A sensação é de que a Mata do Passarinho é uma legítima Arca de Noé

Como é de praxe nos domínios da Mata Atlântica, a Mata do Passarinho só sobreviveu porque se localiza numa área de difícil acesso, com relevo bastante acidentado, o que dificulta sua exploração.

Após uma subida íngreme, adentramos um mundo perdido, isolado nas montanhas mais altas da região, uma ilha de biodiversidade onde dezenas de espécies ameaçadas encontraram refúgio entre mares de morros devastados, última morada de uma das aves mais raras do mundo.

Preciso dizer mais alguma coisa? Só que é um lugar imperdível!!!

Como já adiantei, registrar o entufado-baiano é tarefa árdua. Além do cuidado que temos que ter com tal raridade, a topografia e habitat não ajudam. Tomei três tombos, e com fortes dores nas costas, além de uma noite sem dormir, este foi o melhor registro que consegui:

Maior que seu "primo" do sul, sua presença é marcante, quando conseguimos vê-lo...

O pouco tempo que sobrou das nossas buscas pelo entufado foi suficiente para apreciarmos outras raridades da Mata do Passarinho, é incrível a concentração de aves raras e ameaçadas naquele lugar:

Cuitelão (Jacamaralcyon tridactyla)

João-baiano (Synallaxis whitneyi)

Papa-moscas-estrela (Hemitriccus furcatus)

Rabo-amarelo (Thripophaga macroura)

Sabiá-pimenta (Carpornis melanocephala)

Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), reencontro emocionante

Tiriba-de-orelha-branca (Pyrrhura leucotis)

Tropeiro-da-serra (Lipaugus lanioides)

Chora-chuva-de-cara-branca (Monasa morphoeus), ao que tudo indica, primeiro registro pra Mata do Passarinho no Wikiaves

Com esse desfile de raridades da Mata Atlântica finalizo nosso primeiro destino parabenizando o pessoal da Biodiversitas, em especial o Bill e o Alexandre, por salvar da extinção o entufado-baiano e preservar a incrível Mata do Passarinho: http://www.biodiversitas.org.br/projetoasas/reserva.html




terça-feira, 8 de março de 2016

Back to REGUA

AVE AMIGOS!!!

A REGUA, Reserva Ecológica de Guapiaçu, é uma RPPN localizada aos pés da Serra dos Órgãos que protege uma das últimas matas de baixada no Estado do Rio de Janeiro.




Súdito da rainha Elizabeth II, Nicholas Locke, o proprietário da REGUA, realiza um trabalho digno de aplausos de todos nós brasileiros. Com recursos próprios e de seus patrícios, ele já reflorestou vários hectares em um trabalho contínuo de aquisição de novas terras e plantio de mudas de árvores nativas, além de recuperar uma importante área alagada que hoje preserva o raro jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), entre tantas outras espécies de nossa fauna. Também apoia pesquisas fornecendo uma boa infraestrutura para cientistas. Enfim, um exemplo a ser seguido! Deixo aqui meus parabéns ao Nicholas e à sua família que também trabalha neste grande projeto.

Em 2012 conheci a REGUA, nessa ocasião conheci pessoalmente também o amigo Gabriel Mello, que, diga-se de passagem, me guiou com maestria. Pois bem, mais de 3 anos depois retornei àquele paraíso, com o grande Brunão, meu primo parceiro de passarinhadas.

Conforme combinado chegamos às 7 horas(uma dica, vale a pena chegar pelo menos uma hora mais cedo), porém o guia terceirizado que o Thomas(filho do Nicholas) havia arrumado pra gente não pode ir na última hora e ficamos sabendo quando chegamos que teríamos que nos virar sozinhos. Mas o sempre precavido Brunão levou o playback e então partimos rumo uma das trilhas da Reserva, a Trilha Verde, conforme dica do irmão do Gabriel, o grande Daniel Mello, que também guia no local. Aliás, infelizmente nenhum dos irmãos Mello estava disponível para nos guiar lá, e claro, não poderia deixar de indicá-los, pois além de conhecerem muito bem a REGUA e sua avifauna, realizam um excelente trabalho há anos na região. Trabalho que culminou no excelente e inédito guia Aves da Serra dos Órgãos e Adjacências.

Após as boas vindas do atencioso Thomas, pegamos alguns quilômetros de estrada de terra para chegar ao começo da Trilha Verde.

E logo no começo um bando misto com muitas saíras-sete-cores, além de saí-azul, tiê-galo e saíra-galega deu as boas vindas. Uma sete-cores em especial me chamou atenção pois se equilibrava em um tronco e pegava alguma coisa em suas reentrâncias. Alimento talvez?!




Seguindo pela trilha a mata ia ficando cada vez mais alta e fechada.
Deparamo-nos com formigas-correição, mas incrivelmente nem uma ave as seguia.
Um tinamídeo se e nos assustou, e em rápida correria sumiu sem que pudéssemos ao menos identificá-lo.

Continuando, escutamos algo na serrapilheira e descobrimos um vira-folha fazendo jus ao seu nome popular(desculpem a má qualidade do vídeo mas achei interessante mostrar o comportamento, o tamanho deste vídeo só me permitiu postá-lo como link):

https://www.youtube.com/watch?v=1XKYhKtVxpo

Em seguida um clássico exemplo de quão difícil é a fotografia de aves:

Ia ficar muito legal, se o modelo colaborasse

Estamos em um período conhecido como "descanso reprodutivo" das aves. É um tempo de silêncio na mata, tempo que o playback nem é tão necessário já que as aves não dão muita bola para intrusos etc. Mas como a mata é boa de bicho, eles iam aparecendo à medida que avançávamos na trilha.

Abre-asa


Tiê-do-mato-grosso

Capitão-de-saíra
Chegamos a mais de mil metros percorridos da Trilha Verde, procurávamos principalmente o patinho-gigante, espécie ameaçada, lifer pra mim. Mas não foi dessa vez e a manhã acabara, o que nos fez retornar para o almoço que aliás estava uma delícia, famosa comidinha da vovó.

Sem pausa para descanso, já que era um bate-e-volta e eu tinha um compromisso às 19 horas no Rio, partimos para o famoso mini-pantanal da REGUA.

Época ruim, horário ruim, mas mesmo assim, nosso esforço rendeu alguns registros.

Havia muitas chocas-listradas, quase fiz a foto que eu queria desta espécie, mas como aquela do arapaçu, só ficou na vontade. Usando o playback, dificilmente conseguimos uma situação tão boa quanto ao acaso:

Sou fã desta família

Agora, a ave que mais abundava mesmo no pantanal era o eloquente frango-d'água:



Havia um grande bando de anus-coroca, há muito tempo não via essa interessantíssima espécie. Mas ariscos, essa foi a melhor foto que consegui:

Não deram a mínima para o playback

A espécie que mais queríamos ver no pantanal era o excêntrico arapapá. Não foi fácil localizá-lo, o Brunão é que o encontrou do outro lado da lagoa, bem longe, quando já tínhamos até perdido as esperanças de encontrá-lo:

Raridade preservada na REGUA

Achei estranho não termos visto nenhum anatídeo, então nos "finalmentes" eis que pinta um casal de asas-brancas dando um breve show:





O Brunão adorou o lugar e já me convidou novamente pra voltar, o que não deve tardar em acontecer.

Bem pessoal, fico por aqui parabenizando novamente o Nicholas e sua família por preservar, em prol da humanidade, esta importante reserva!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Carnaves 2016

Ave!

Este ano tive oportunidade de aproveitar o melhor Carnaval do mundo(aliás o único que ainda tenho disposição de frequentar), o da minha querida cidade, Rio Piracicaba/MG. Nada de multidões, confusões, só alegria compartilhada entre familiares e amigos. E claro, como não poderia ser diferente(e que me perdoem os amigos foliões), em duas oportunidades estávamos lá, eu e meu fiel companheiro tio Maninho Camarão, o Timá, às 3 da matina, acordando (enquanto os súditos do Rei Momo se retiravam)para dois "bate-e-volta" muito esperados.

O primeiro, uma visita ao precioso Parque Estadual do Rio Doce(PERD) com os amigos Henrique Junior e Thiago Franco, com a possibilidade de uma esticada até a gloriosa Iapu do Leandro Moreira.

O PERD é verdadeiramente um tesouro, trinta e tantos mil hectares de mata de baixada, a variante mais ameaçada da Mata Atlântica. Só conheço outro remanescente de grande porte deste tipo de mata, localizado em Sooretama/Linhares, no ES. Não por acaso só temos registros recentes do raríssimo e enigmático Neomorphus geoffroyi dulcis nestas duas localidades.

Sempre que estou no PERD tenho aquela ótima sensação de que tudo pode acontecer.

Bem, desde que descobriram o raro e ameaçado fruxu-baiano(Neopelma aurifrons), nas matas primárias do PERD, fiquei com aquela vontade de ir lá conferir. Então entrei em contato com os amigos Celso de Castro e Henrique Junior, que conhecem tudo na região. Infelizmente o Celso viajaria no Carnaval, mas o Henrique não, e gentilmente se colocou à disposição para me apresentar a raridade. O grande Thiago Franco se juntou à expedição e lá fomos nós!

Adentramos o Parque pela estrada da ponte queimada, ouvidos e olhos atentos. Mata primária não tem muito bicho, ao contrário do que podemos imaginar, mata em regeneração tem mais quantidade, mas estávamos procurando "qualidade" e isso só uma mata primária imensa como a do PERD pode nos proporcionar. O PERD é praticamente o último refúgio de várias aves mais exigentes, "de baixada", em Minas Gerais.


Não demorou para o Henrique, que conhece muito bem as aves de lá, nos alertar sobre a presença próxima de papagaios-moleiros(Amazona farinosa), espécie considerada a maior do gênero.

Este grande e arisco papagaio vive nas copas de florestas densas, sendo mais encontrado na Amazônia, já que na Mata Atlântica, além da perseguição do tráfico, restam poucas matas grandes o suficiente para a perpetuação da espécie.


O único registro que tinha deste papagaio feito em 2013, Linhares/ES


Tentamos detectá-lo nas altas copas mas sua camuflagem mais uma vez funcionou perfeitamente. Então o Henrique acionou o playback e logo um papagaio-moleiro pousou em cima da gente e começou um desfile nota DEZ, apresentando seus mais belos adereços de forma suntuosa. Não trocaria esta breve apresentação por uma noite em claro na Sapucaí.







Foi um abre-alas nota DEZ!

Então seguimos adentrando a mata do Parque até que nosso guia, o Henrique, pediu pra parar: parô!

Bando misto! Ala diversificada com vários e diferentes componentes que desfilam pela mata esbanjando simpatia, em reluzentes e coloridos trajes.

Bando misto é assim, se a gente quiser algum registro legal tem que focar, senão fica só no deslumbre de ficar procurando bicho. E focamos numa espécie das mais interessantes que compunham o bando e que, conforme o Wikiaves, em Minas, o PERD é seu único refúgio, o caneleiro-bordado(Pachyramphus marginatus).


Caneleiro-bordado fêmea


Outro "tesouro perdiano" que pintou foi o beija-flor-safira(Hylocharis sapphirina).


Em MG só há registros na região do PERD (Wikiaves)

Bem, também haviam lifers: a choquinha-chumbo e o fruxu-baiano.

O fruxu foi muito tranquilo... chegamos em seu território, mata primária, alta, onde já havia estado uma vez com o próprio Timá e escutado o esturro de uma onça-pintada. Respondeu muito bem ao playback e sem explorarmos da sua boa vontade deixamos, felizes, nosso recém conhecido amigo emplumado.


O raro fruxu-baiano

Já a choquinha-chumbo, também rara e ameaçada, no PERD é localmente comum, achamos várias delas ao longo do caminho percorrido, mas tímida, não quis saber de se exibir e o máximo que consegui foi uma daquelas "fotos de lifer".

Choquinha-chumbo lá nas alturas


Depois de muita folia, acabou-se a manhã e no caminho de volta, eis que o Henrique me dá a boa notícia: o Leandro Moreira, que até então iria trabalhar o dia inteiro naquela segunda de Carnaval, acabara de ligar avisando que estaria liberado depois do almoço. Perguntei pra Timá sobre sua disposição e apesar de exaustos pelo excesso de calor, mosquitos e poucas horas de sono, resolvemos pegar mais algumas dezenas de quilômetros e enfim conhecer a famosa anhuma do Leandro.

Despedimos dos amigos Henrique Junior e Thiago Franco, agradecendo-os pela grande oportunidade proporcionada e partimos para terras nunca dantes navegadas.

Chegamos na pitoresca Iapu e quando já estávamos terminando de almoçar na praça que era nosso ponto de encontro, o Leandro aparece e facilmente nos identifica pela indumentária pouco usual mesmo para o Carnaval.

Gente finíssima o Leandro, nos contou sua história interessantíssima. Graças àquele par de anhumas, que surpreendentemente adotou seu "quintal" para viver o ano inteiro, o Leandro virou um birder. Não é pra menos mesmo, a anhuma é uma espécie extraordinária, ave migratória de grande porte, verdadeiro unicórnio, cujo "chifre", conforme está no Wikiaves, chega a 12 cm de comprimento.

O Leandro não mediu esforços para nos apresentá-las. E para dar aquele "tempero", só as encontrou no último lugar onde costumam ficar. Saímos então em disparada! No caminho ainda tive o prazer de conhecer seu pai que estava trabalhando próximo ao local. A poucos metros dali, num brejo, lá estavam elas! E para minha alegria, não só um par, mas uma bela família!

Foi a primeira reprodução observada desde que o Leandro descobriu a espécie no local, há mais de três anos. Ao que tudo indica, aquele par de anhumas resolveu fixar mesmo o território ali o ano todo, contrariando seus hábitos migratórios.

Família de Anhima cornuta


O filhotão só é denunciado pelo chifre (um tal de espículo córneo) menor, o indivíduo do meio creio se tratar do macho. Contemplando esta foto, fico imaginando como ele faz para se alimentar com este adorno que, diga-se de passagem, é nota DEZ em originalidade.

Ainda fui agraciado com uma pena de anhuma, que já está devidamente instalada ao lado de uma outra que tenho de harpia.

Gostaria de agradecer ao grande Leandro, "o cara" da anhuma, por tudo! Muito obrigado meu amigo!


Dois dias depois, lá estávamos nós de novo, de pé às três da matina para chegar ainda em boa hora ao nosso destino, a serra da Gandarela.

Assim conhecemos a serra da Gandarela


Desde que soube da luta para se criar o Parque Nacional da Serra da Gandarela tive vontade de conhecê-la. Demorou alguns anos, apesar da pouca distância de minha cidade. Aproveito aqui para agradecer ao amigo e ornitólogo itabirano Juliano Silva, que já trabalhou na Gandarela e conhece como poucos as aves da nossa região, a oportunidade de conhecer aquele paraíso.

Timá e Juliano contemplando a sensacional serra da Gandarela

O PARNA da Serra da Gandarela, juntamente com outras reservas contíguas, como a RPPN do Caraça e a Floresta Estadual de Uaimii, formam o segundo maior continuum de Mata Atlântica do Estado, ficando atrás só do PERD, além de proteger um dos biomas mais ameaçados do mundo (ainda mais ameaçado que a Mata Atlântica), a Canga Ferruginosa.

Mas, infelizmente, interesses privados conseguiram retirar uma área estratégica para a natureza (onde se formam várias nascentes, p. ex.), da área original do Parque, definida pelos próprios técnicos do ICMBIO. Com só um objetivo, explorar o subsolo, até esgotar toda a água, toda a vida.

Não consigo entender como que é possível, em plena crise hídrica, um trem desses! Como disse uma sertaneja muito simples e sábia, ontem na TV: o homem consegue fazer tudo, menos água.

Bem, foram quase três quilômetros descendo uma parte florestada da serra e, claro, subindo também. E apesar dos mais de 1300 metros de altitude, o calor estava sufocante, principalmente na subida. Aliás, parece que o calor, somado a um provável descanso reprodutivo de algumas espécies, deixou a floresta um tanto silenciosa, mas mesmo assim, com sua expertise, o Juliano contabilizou mais de 70 naquela manhã, inclusive uma nova para o município de Santa Bárbara(uma das cidades abrangidas pela Gandarela) no Wikiaves: o vira-folha(Sclerurus scansor), que aliás, mais uma vez, não deu mole para fotos.

Mas, na minha opinião, o ponto alto desta breve visita foi o encontro com o topetinho-vermelho(Lophornis magnificus), o menor e um dos mais belos beija-flores brasileiros, espécie que sempre quis encontrar na nossa região, onde é muito raro, contando com pouquíssimos registros.

Jovem fêmea detectada pelo Juliano na copa de uma árvore
Se alguém souber do que ela está se alimentando... 


É isto, mais uma vez agradeço aos amigos que fizeram do Carnaves 2016 um evento DEZ, nota DEZ!!!