sábado, 14 de março de 2020

Graças aos brothers

Ave, amigos!

Foi só um dia, mas sem dúvida um dos melhores desses 10 anos fotografando nossas aves!

Definitivamente sou um apaixonado pelo nosso Cerrado. Um lugar iluminado, mas que infelizmente está sendo dizimado para enriquecimento de alguns poucos, gerando desequilíbrio social e ecológico, risco de extinção de espécies sensacionais, entre outras mazelas.

Pra vocês terem uma ideia, precisamos rodar 45 km dentro de Pompeu para chegar numa área de campo preservada o suficiente para abrigar o suiriri-da-chapada (um dos objetivos dessa viagem).

Pelo caminho, campos infindáveis de cana, muitos eucaliptais e alguns bois. Nenhuma roça, nenhuma casinha, nenhum povo. Só uma cultura: a do enriquecimento a qualquer preço.

Bem, voltemos à parte boa da história.

Esse final de semana realmente ficará gravado para sempre na minha memória! Pude enfim conhecer o já internacionalmente reconhecido trabalho dos jovens e dedicados irmãos Pompeu, e ainda estar presente na festança do aniversário do meu querido irmão, Ary Ramon. Uma correria só (1600 km!), mas valeu demais todo o esforço!

Finalizamos o dia com uma das sanãs mais difíceis, a do capim
Apesar do cansaço físico, o astral não poderia ser melhor


Começamos aquela inolvidável manhã com talvez a maior estrela de Pompeu. Uma ave raríssima, belíssima e, se não fosse o trabalho dos irmãos Pompeu, dificílima de fotografar. Sem dúvida uma das joias mais preciosas do nosso Cerrado, a ameaçada sanã-de-cara-ruiva.

Os caras mandaram muito bem! Além de tudo (não temos ideia do trabalho que dá ganhar a confiança de uma sp como essa e preparar todas as melhores condições para fotografá-la), ainda fizeram um making off que ficou show, capturando os bastidores do momento mágico, quando aquele fantasminha do Cerrado "deu as caras" e entoou seu canto.




Sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus), categoria IUCN: vulnerável à extinção
Desfilando calmamente, sabia que estava entre amigos






Esse bicho é de arrepiar!!!


Depois do encontro extasiante com essa raridade, partimos para outro ralídeo (família das sanãs, saracuras, maxalalagá etc, quase todos bem difíceis de fotografar) que também é uma das grandes atrações de Pompeu e que, novamente graças ao excelente trabalho dos irmãos Luíz Alberto e Afonso Carlos, tivemos ótimas oportunidades para foto.

Tudo é pensado nos mínimos detalhes para que consigamos o melhor registro possível


Lamentavelmente, não consegui registrar um filhotinho que passou velozmente e numa única oportunidade pela pequena clareira na vegetação rasteira, mas ficamos felizes em saber que a espécie está se reproduzindo no local.


O enigmático turu-turu (Neocrex erythrops)



Fotografar essas espécies elusivas é um barato!

Mesmo ciente da competência dos irmãos Pompeu (atestada pelas inúmeras e excelentes fotos dos seus privilegiados clientes), sabemos que a Natureza é soberana e imprevisível.

A expectativa quando tudo está pronto é sempre grande.

Quando enfim o bicho pinta, a adrenalina corre solta! E aprendemos que os momentos que outrora não obtivemos sucesso, a despeito de tudo conspirar a favor, servem para tornar os futuros êxitos ainda mais emocionantes. Afinal, a luz não reinaria se não houvesse a escuridão.

Felizes demais da conta, partimos então para uma viagem que totalizaria 90 km dentro do município de Pompeu.

Porém, no caminho, como já descrevi, uma paisagem desoladora, formada pela monotonia das monoculturas...


As espécies que não conseguem se adaptar às mudanças provocadas pelo homem acabam se tornando raras, ameaçadas de extinção. São exigentes, ecologicamente falando, e assim vão se extinguindo localmente, à medida que o homem avança, alterando seu habitat, suprimindo as condições ecológicas para a perpetuação da espécie.

Não à toa encontramos uma grande quantidade delas no paraíso que se descortinou depois de tantos quilômetros de devastação. Esse local deve ser preservado, pois certamente é um dos últimos refúgios daquela incrível biodiversidade na região.

Esses campos naturais são cada vez mais raros nos domínios do Cerrado e guardam valiosa biodiversidade


A beleza cênica e a raridade dos seus habitantes tornam esse lugar digno de todos os esforços para sua preservação


De repente, uma paisagem de rara beleza põe fim à tristeza monocromática daquela estrada da morte.

Sem placas de aviso, um mundo repleto de formas, sons e possibilidades se descortina.

E para elevar ainda mais a vibração daquele momento, a primeira ave que encontramos, assim que desembarcamos, foi exatamente a que me levou àquele lugar fantástico...


Suiriri-da-chapada (Suiriri affinis) e seu belo display

E o suiriri-da-chapada não deu show, foi um espetáculo!











Logo depois de tão eloquente apresentação (e não pensem que ouve abuso do playback, os Irmãos Pompeu são muito sensatos e amam verdadeiramente as aves), os guias acharam outra espécie daquelas bem exigentes, das que só encontramos nos campos que outrora dominavam grande parte do Brasil central e que hoje sobrevive acuada, em reservas e nos últimos rincões, onde os campos naturais ainda sobrevivem.






Tico-tico-de-máscara-negra (Coryphaspiza melanotis)

O tico-tico-de-máscara-negra, assim como a sanã-de-cara-ruiva, encontra-se na categoria "vulnerável à extinção". E pelo mesmo motivo, perda de habitat.

Será que vamos chegar ao cúmulo de aniquilar essas belas e indefesas formas de vida da face da Terra?! Estamos caminhando a passos largos...

Outra espécie encontrada, que como o suiriri-da-chapada, está quase ameaçado de extinção pela destruição do Cerrado, foi o mineirinho. Um bicho que conheci num dos meus primeiros livros e que ficou por muitos anos no plano das ideias, até se materializar não muito distante dali, em Curvelo, com o amigo Wagner Nogueira. Depois o reencontrei em Brasília, com o amigo Carlos Goulart. Mas foi em Pompeu onde tive a melhor oportunidade para fotos.




Os Irmãos Pompeu disseram que tem muito desse incrível passarinho por lá, sendo um dos melhores lugares para registrá-lo. Realmente...





A vida abundava naquelas paragens pouco afetadas pelo homem.

Foram poucas horas, poucos metros percorridos naqueles iluminados campos, mas o suficiente para captar algumas de suas amistosas formas de vida.

Patativa e canário-do-campo

O campainha-azul se destaca nas paisagens visual e sonora do Cerrado, tornando-se uma de suas aves mais emblemáticas

Campainha-azul fêmea, muitas vezes passa despercebida


O canário-rasteiro, com seus voos cantantes, sempre enriquece o ambiente

Então tivemos que nos despedir daquele santuário.

Espero sinceramente que os proprietários daquelas terras se conscientizem de que nada que eles possam produzir ali justifica a destruição daqueles prodigiosos campos. E que a melhor herança que eles podem deixar para seus descendentes é aquela área natural e sua incrível biodiversidade preservadas.


Partimos então para tentar registrar outro ralídeo "casca grossa", considerado um dos mais difíceis de fotografar, a sanã-do-capim.

Não era lifer, mas a única foto que tinha desse bicho fazia mais juz ao seu nome popular do que
à beleza da espécie.
Fiquei muito satisfeito em conseguir registrá-la, em 2016, embora a foto tivesse mais capim do que sanã


Mas em Pompeu, graças aos ghostbusters Luíz Alberto e Afonso Carlos, esse fantasminha materializou-se.

Sanã-do-capim (Laterallus exilis), na sua primeira aparição
Assim que pintou, deu uma rápida batida de asas, parecendo aproveitar a vida livre do denso capinzal para alongá-las, e, em breve voo, atravessou a pequena clareira





Bem caros amigos leitores, com essa imagem um tanto incomum, finalizamos um dia e tanto.

Despeço-me deixando meus sinceros agradecimentos aos Irmãos Pompeu. Parabenizo-os também pela promoção do ecoturismo local, colocando Pompeu no mapa da observação de aves.

Aproveito também para parabenizar mais uma vez o meu irmão, Ary Ramon, pelos seus 26 anos, agradecendo-o pelos momentos inolvidáveis compartilhados. Brother, espero que possamos viver ainda muitos outros anos juntos nesse plano.

Até a próxima, pessoal!

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Ave Amazônia II

Ave amigos!

Foi só na terceira vez que visitei a Amazônia que consegui encontrar o papagaio mais fantástico do Brasil. Como é de costume, de longe, pois é uma espécie "de copa", e as árvores amazônicas estão entre os maiores seres vivos do planeta. Na torre do MUSA já o vi também, numa das cerca de quatro vezes que subi seus mais de 40 metros de altura, naquela ocasião ainda mais distante.



Primeira vez que encontrei o anacã (Deroptyus accipitrinus), RPPN Cristalino/MT, 10/2014


Dessa vez parecia que não seria diferente.



Assim, de muito longe, é como costumamos encontrá-los

Depois de um bom tempo, quando já havíamos até esquecido deles, eis que o bando alça voo e vem em nossa direção. Na mesma hora torci como numa final de copa do mundo (dos bons tempos), imaginando o quão fantástico seria se eles pousassem próximo da torre.

Foi um daqueles breves instantes em que vamos de uma grande expectativa - quando não sabemos se será decepcionante ou extasiante - a um desfecho incrível, com o pouso em uma árvore próxima.

A movimentação de crianças que pareciam querer ver o Papai Noel e a profusão de cliques não os espantou, para nosso delírio. E mesmo partindo instantes depois, aquele breve e íntimo encontro certamente foi o mais top da viagem.













Acabei dando um mole danado... não vi que a câmera estava configurada somente para JPEG, o que atrapalhou um pouco o resultado final. De qualquer forma fiquei satisfeito pois consegui atingir o objetivo que almejo em espécies como essa, o de revelar um pouco as maravilhas que a Natureza nos proporciona.

Ave Amazônia!

Ave!

Birders de todo mundo vão à Amazônia em busca de sua rica e exótica avifauna. Mais de 1000 espécies já foram catalogadas nos seus domínios, cerca de 10% de todas as espécies de aves do mundo!

Mas biodiversidade é muito mais do que ter muitas espécies num mesmo lugar. Biodiversidade significa um mundo de possibilidades valiosas.

A título de exemplo, duas das maiores indústrias do mundo se servem dela para curar e embelezar, auferindo lucros estratosféricos.

O nosso corpo é uma máquina, já disseram. E como qualquer máquina, precisa de ferramentas quando apresenta algum defeito. A biodiversidade é um conjunto de ferramentas, conhecidas, por exemplo, pelos povos indígenas, que se servem muito bem delas há milênios.

Biodiversidade significa diversidade genética. Os princípios ativos de medicamentos e cosméticos são produzidos por essa espetacular oficina. Quanto mais biodiverso, maiores serão as possibilidades.

Quantas curas já se perderam com a devastação inescrupulosa e burra da Amazônia... (com o devido pedido de desculpas ao nobre equino)

Nossas Universidades deveriam ter bases de pesquisa em toda a Amazônia, patenteando suas descobertas, ajudando economicamente o país e, principalmente, toda a humanidade.

Estudos demonstram que a floresta vale mais em pé, mas para tanto precisamos investir em muita pesquisa científica. Como sempre digo, não há outro caminho para esse país, só a educação nos libertará do subdesenvolvimento.

Enquanto isso, cidadãos fascinados pela mídia aliciadora de necessidades supérfluas, sedentos de ilusões e carentes de conhecimento, inconscientes e largados à própria sorte, são explorados pelos celerados ambientais, que vão aniquilando as chaves que poderiam abrir portas de um futuro sustentável, com menos doenças e melhor qualidade de vida.

Singular amostra da biodiversidade amazônica, protegida pelo Parque Nacional de Anavilhanas

A Natureza, para manter tal conjunto extraordinário de ferramentas, se serve de uma complexa e frágil rede, onde todos cooperam com a lei de evolução.

A retirada de uma só espécie pode causar um efeito em cadeia que certamente empobrecerá o conjunto, diminuindo nossas possibilidades. Lembrando que o homem ainda não tem tecnologia para criar tais ferramentas (corrijam-me se estiver desatualizado).

Por enquanto, a Natureza é a nossa principal fonte de manutenção.

Muitas espécies de plantas precisam das aves para dispersarem suas sementes

E para a polinização



Anacã, um dos papagaios mais incríveis do planeta







Galo-da-serra, a ave do paraíso brasileira

Fêmea do galo-da-serra




Sobre a serrapilheira, o formigueiro-ferrugem, um dos meus favoritos



A Amazônia possui uma enorme quantidade de araçaris, esse é o negro



Mas creio que os arapaçus são imbatíveis, são 43 espécies no país, a maioria ocorre na Amazônia, esse é o de bico-curvo



Esse simpático gaturamo-anão foi muito gentil



Os rapinantes desempenham fundamental papel ecológico, esse é o belo gavião-branco



O curioso mico-de-mão-dourada




O belíssimo pica-pau-de-barriga-vermelha



Surucuá-de-cauda-preta faz parte de uma família simpática, elegante e bela



Uma das espécies que mais queria encontrar, estrela do NATGEO, o maú ou pássaro-boi é deveras fantástico


Saurá, uma das maravilhas amazônicas, vale outra tentativa para melhorar o registro


Importante frisar que o sucesso de qualquer expedição depende muito do guia, ainda mais na vastidão amazônica. Dessa vez tivemos a oportunidade de trabalhar com o casal vinte de Manaus, Luiz Fernando (já pela segunda vez) e Vanilce Carvalho, a quem agradeço imensamente o profissionalismo e dedicação. Agradeço também Guilherme Serpa, pelo convite, e João L. Quental, pela companhia.