quarta-feira, 23 de maio de 2018

Ave Avistar!

Ave amigos!

Foi com grande surpresa e muita satisfação que recebi um convite do Guto Carvalho para palestrar na maior feira de observação de aves da América Latina, o Avistar, que ocorre anualmente em São Paulo há 13 anos.

Viajei no tempo e lembrei-me de que só depois de muitos anos já observando as rapinantes descobri que haviam outros malucos como eu. Espantado descobri que até havia um clube deles!!! Era o COA-RS, que me foi apresentado pelo primeiro livro de aves brasileiras que tive, o "Aves Silvestres do Rio Grande do Sul", do William Belton. Algum tempo depois descobri que havia um COA na minha terra também, o COA-MG (atualmente ECOAVIS), através do "Aves Silvestres de Minas Gerais" do hoje amigo Marco Antonio de Andrade, na época discípulo do grande Helmut Sick.

Tempo de solidão e obscuridade...

Era inviável entrar em contato com esses clubes. Não havia imagens da grande maioria das nossas aves de rapina. Nas bibliotecas os livros traziam fotos de animais do Velho Mundo. Da nossa fauna só os icônicos eram raramente encontrados, como a harpia.

Foram décadas de observação sem ninguém com quem aprender, compartilhar as experiências. Foi a Idade Média de minha vida ornitológica.

Mas então, com o advento da revolução digital, novas luzes clarearam aquele horizonte sombrio! Comunicação e conhecimentos irrestritos iniciaram uma nova era.

Um novo mundo surgiu, um mundo onde somos automaticamente atraídos para lugares conforme nossas afinidades. Convencionou-se, como de praxe, utilizar o nome em inglês para esses lugares. E o primeiro "site" para onde fui atraído nesse novo mundo foi o "Wiki Aves". Era um lugar onde extraterrestres como eu não se sentiam tão excêntricos, muito pelo contrário, ali era nosso habitat virtual.

Foi o período das grandes descobertas!

A grande maioria das espécies, que até então eram verbetes em velhas enciclopédias, ganharam forma numa profusão de fotos de vários birders espalhados pelo país. Descobri o meu lugar favorito naquele novo mundo e, o mais importante, encontrei outros que compartilhavam daquela minha paixão.

Camila, Alessandro Abdala, Reinaldo (criador do Wiki Aves), Nara , Márcia e eu


Bem pessoal, quem diria que haveria uma feira nacional reunindo milhares de participantes e que aquele menino pequeno de Barbacena, digo, Rio Piracicaba, que saia solitário pro mato com binóculos a tira colo ainda estivesse nela, falando para pessoas de todo país?!

Trensão antes da palestra
Mas assim que os novos e velhos amigos começaram a chegar aquele trensão passou

Aí, já destravado, começaram vinte minutos de falazada ininterrupta
Agradeço o registro do grande fotógrafo e amigo Alessandro Abdala



Avistar é aquele lugar onde os perfis se corporificam e se "trombam". É o site nada virtual da nossa tribo. Todos falando a mesma língua, numa sinergia que faz a psicosfera do lugar a melhor possível.

Um dos raros ambientes populosos em que me sinto bem

Os amigos Marcia e Jorge Pavani, que faz um excelente trabalho de conscientização em Roraima


Com os brothers Clezio Kleske, Alessandro Abdala e Guilherme Serpa
Foto: Camila

Foram muitos melhores momentos (e quase não teve piores). Logo na chegada e com muita alegria percebi que a principal exposição de fotos do evento era a do meu grande amigo, premiado fotógrafo, professor e escritor Alessandro Abdala.


Eu e o Abdala com a premiada foto do urubu-rei, realizada em 2012 em nossa primeira e inesquecível expedição à Canastra, intitulada "Quando a chuva é uma aliada". 

O hotel do evento abrigou os palestrantes e muitos participantes. Dividi o quarto com um palestrante de peso, o ornitólogo André de Luca, que falou sobre um projeto muito legal, na Amazônia paraense. Foi um grande prazer conhecer pessoalmente esse fera da ornitologia, gente boa demais!

André de Luca, Ciro Albano e sua esposa, num happy hour no hotel

Um dos projetos apresentados no Avistar que mais me chamou a atenção e que recomendo bastante é a Expedição Fotográfica Serra do Amolar, realizada pelos amigos Thomaz Lipparelli e Marcelo Calazans. Sofisticação e Natureza lado a lado, por um valor que me surpreendeu positivamente. Com certeza será um empreendimento de sucesso e que muito irá somar ao ecoturismo brasileiro! Parabéns meus amigos!

Grande prazer também em rever o amigo João Marcos Rosa, depois de anos dos eventos de lançamento do livro "Harpia"(fui em dois), nossos últimos encontros. Adquiri minha primeira lente com ele. É uma pessoa que, apesar de ser uma das estrelas da fotografia de natureza no Brasil, é um exemplo de simplicidade e simpatia, demonstrando que dá pra ser "o cara" sem ter que empinar o nariz. Assisti também à sua palestra. Parabéns pelo maravilhoso trabalho com as araras de Lear meu velho.

Foram muitos grandes momentos, os amigos bem sabem. A lista de encontros memoráveis foi grande demais por isso ficarei por aqui para não me estender demais.

Então é isso pessoal!

Avistar é mais do que um lugar para saber das novidades, encontrar velhos amigos, conhecer pessoalmente amigos virtuais e fazer novos. Avistar é a realização de um sonho! É saber que não estamos sozinhos e que tem pessoas que se interessam pelo que você ama.

Pena que, assim como nas passarinhadas, o tempo passa como as aves, e sempre saímos com aquela sensação que podíamos ter aproveitado muito mais.

Agradeço imensamente ao Guto Carvalho, pelo convite; à Márcia Carvalho, pela excelente companhia na viagem até SP; à Clarinha e D. Celi, pela grande ajuda na palestra; ao Alessandro Abdala, pelos ótimos registros; ao Wagner Nogueira, pelo apoio de sempre; ao Andre de Luca, pelo companheirismo; ao Luiz Ribenboim, pelas lembranças; à organização do evento, pela competência em lidar com as adversidades; e aos amigos, pelo carinho de sempre.

Vida longa ao Avistar!!!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Birdwatching e redes sociais


A convite da querida amiga Claudia Komesu resolvi escrever um pouco sobre um assunto que já andei matutando há um tempo atrás e que vai ao encontro do tema proposto. 
Hoje em dia não há como negar a grande influência das redes sociais na vida das pessoas. Graças à internet nunca estivemos tão conectados! E influenciados...
Vejamos... 
Nada é mais importante numa democracia que a opinião pública, ela dita os rumos de uma nação verdadeiramente democrática. É a opinião pública que diz quem será o governante de uma nação. Numa democracia madura os políticos se baseiam na opinião pública para legislar. 
Também sabemos que a propaganda exerce uma forte influência na formação da opinião pública. Alguém duvida da importância dos marqueteiros numa eleição? 
Recentemente um escândalo envolvendo o facebook comprovou o grande poder do marketing político nas redes sociais. 
Propaganda sempre foi a "alma do negócio", e quantas vezes já ouvimos "uma imagem vale mais que mil palavras".

Por mais talentoso o artista, a natureza é imbatível, e nós, fotógrafos, tentamos captar sua beleza 


Quer acabar com o meu dia? Compartilhe comigo o sofrimento daquelas pobres crianças sírias vítimas da estupidez humana. 
E quão deprimente é ver tanto lixo, de toda espécie, circulando na internet? 
As redes sociais podem te jogar pra baixo, podem te levantar, te instruir ou ludibriar, dar esperança ou desesperar, tudo depende do que você compartilha. Somos todos influenciáveis, uns mais, outros menos, mas todos somos, ao menos em nível subconsciencial.  
Todos já ouviram falar: nós somos o que consumimos. Se consumirmos muita gordura, ficaremos gordos, se consumirmos livros de filosofia, filosofaremos, se consumirmos lixo nas redes sociais certamente isso não fará bem para nossa mente.
Mas aonde quero chegar?
Não devemos menosprezar ou subestimar o compartilhamento de nossas fotos nas redes sociais. Tal compartilhamento certamente ultrapassa as fronteiras da vaidade humana. 
Muito além das curtidas que podem ou não massagear nossos egos, nossas fotos podem impactar o estado de espírito das pessoas e, creio eu, até influenciá-las em suas opiniões. 
Quantas vezes, desenrolando minha linha do tempo, me pego de saco cheio com tantos debates políticos apaixonados (que quase sempre são irracionais) ou entristecido com as misérias humanas, até que, em mais um curto movimento do indicador, contemplo, já com outro estado de espírito, uma bela foto de um bicho massa?

É possível passar incólume diante de fotos como essas?

Nessas horas a arte serve como um bálsamo para as agruras da ignorância humana que hodiernamente se escancaram na palma de nossa mão.
Um dia um amigo me contou que sempre que está estressado ou entristecido ele acessa o Faceaves (grupo no facebook que tem como lema "Conhecer para Preservar" e que conta com cerca de 22 mil internautas) e encontra alívio imediato nas belas fotos que os usuários cotidianamente postam. 
Relatos assim não são raros, recebo-os com certa frequência. E com muita satisfação! 
Outra vez recebi uma mensagem de um garoto de um país vizinho pedindo-me que nunca parasse de tirar fotos. Aquilo me comoveu e comprovou-me o que trago aqui hoje para reflexão. 
Nossas fotos são como sementes pulverizadas pelas redes sociais. Dependendo do terreno elas podem brotar como contemplação, prazer, conscientização, um despertar vocacional etc. 
Divulgando o que a Natureza tem de mais belo, nossas fotos são também imagens publicitárias em prol de sua preservação, pois não se tem consciência, sem ciência.
Enfim, você pode até plantá-las com objetivos egocêntricos, não importa, continue! Suas fotos têm vida própria, um grande potencial de gerar bons frutos e tornam as redes sociais um lugar muito melhor de se viver.

PS: óbvio que podemos e devemos fazer muito mais pela Natureza! O objetivo do texto foi incentivar a maior divulgação possível de nossas aves pelos birders, pois acredito que esse gesto simples, se multiplicado, aproveitando a força das redes sociais, é um mínimo que já pode fazer alguma diferença.

terça-feira, 8 de maio de 2018

O incrível caso da Harpia do Zoo Park da Montanha

Ave amigos!

Já ia iniciar esse post falando que essa viagem começou quando o grande amigo Justiniano Magnano mandou-me o incrível registro de uma harpia feito num zoológico! Mas, pensando melhor, essa é uma viagem que começou há muitos anos atrás...

Minha tia/irmã Helenita (ela é mais jovem do que eu) desenterrou um fóssil que, pelas suas estimativas, é datado de 1981, ou seja, quando este que vos escreve contava com quatro anos de idade. Ela fez até uma arte com ele e me presenteou. Gostei demais, muito obrigado tia Di!

Acreditem, é uma harpia


Daonde pode vir uma paixão assim? Que mesmo já a tendo encontrado 3 vezes (e mesmo que fossem 30) me fez viajar mais de mil km no intervalo de dois dias para reencontrá-la?
Já me fizeram essa pergunta. De concreto mesmo só posso dizer que essa paixão inexplicável me fez ser o que sou hoje, e estou muito feliz com isso.

A prática da observação de aves é muito mais do que se imagina, só quem a pratica sabe do que estou falando. Recentemente estudos mostram o bem que ela pode nos fazer, tanto no plano físico, quanto no mental/espiritual.

O Homem precisa urgentemente parar de destruir a Natureza. Precisa se reconectar com essa mãe zelosa e generosa. Mas, voltando à Vossa Majestade, sou um fiel súdito e sempre que puder estarei lá para venerá-la. Na verdade não tenho palavras para descrever a sensação que é encontrá-la livre na Natureza. É algo no mínimo transcendental!

Bem, chega de babação de ovo de harpia e vamos aos fatos!

Para quem não está por dentro, em março deste ano uma harpia foi vista numa mata que cerca o Zoo Park da Montanha, localizado na região serrana do Espírito Santo, atraída pelo casal de harpias do zoológico. Pelo Wikiaves, é o registro mais ao sul da praticamente única população brasileira dessa espécie na Mata Atlântica. Desde então, quase que cotidianamente (conforme conversa com o dono do Zoo, sr. Almir, gente finíssima, ela tem pintado cinco dias e tem sumido por dois) ela tem sido vista, e o que é melhor, com hora e local pré-definidos! Não podia perder uma oportunidade dessas...

Foi nessa "vibe" que propus ao grande ornitólogo Guilherme Serpa praticamente um bate-e-volta. Entre a nossa partida e nossa chegada aqui no Rio foram 36 horas, só de estrada 16, mas os momentos de êxtase valeram demais a pena!

Dando uma olhada nas imagens de satélite, vemos que no entorno do Zoo Park da Montanha há muitos fragmentos de Mata Atlântica, o que comprova que se cada proprietário de terras conservasse o mínimo legal de vegetação nativa poderíamos ter hoje uma situação ambiental muito mais favorável, preservando biodiversidade, recursos hídricos, clima e equilíbrio ecológico local (o q diminui a necessidade de insumos) etc. Só uma palavra explica a não observância das leis ambientais: ignorância. As leis ambientais foram feitas por especialistas da área e visam o bem de todos, inclusive daqueles que as ignoram.

Mesmo fragmentadas, as matas da região dão abrigo para a maior águia do mundo

Bem, chega de conscientização e voltemos aos fatos.

Minha referência no ES é o grande Justiniano Magnano, uma pessoa iluminada, um grande amigo! Então falei com ele sobre meu propósito. Com sua notável gentileza e generosidade prontificou-se não só para me receber em sua terra, como também para "desenrolar" nossa visita com o sr. Almir. Muita gratidão, magnânimo amigo!

Chegamos conforme previsto, por volta das 14 horas de sábado. Fomos muito bem recebidos pela sra. Maria Isabel que já foi nos enchendo de esperança contando alguns "causos" da festejada harpia do Zoo Park da Montanha. Eu era um poço de emoções: felicidade, esperança, ansiedade, com uma pitada de receio, afinal, na Natureza não há cartão de ponto.

Ficamos sabendo que quando a harpia vem à tarde, chega por volta das 16 horas e, independente do horário, sempre chega pelo mesmo local, um morro florestado localizado em frente ao zoo, que logo batizei como morro da Harpia.

Morro da Harpia

Também tivemos o prazer de conhecer o monitor e futuro ornitólogo Maurício, ele foi o sortudo que primeiro viu a harpia, na manhã do dia 03/03/18 (o sr. Almir nos disse que há 5 anos se sabe da presença desse bicho na região). Será que o grande Maurício tinha ideia da repercussão daquele seu avistamento?!

Birders de todo o ES, além do Rio e MG estão peregrinando até lá para venerar a rainha das matas brasileiras. A imprensa local já noticiou "a ave rara" que está movimentando a região. E o sr. Almir está fazendo um imprescindível trabalho de conscientização da população local, o que é digno de nossos aplausos.

Fomos então para o ponto tradicional, próximo ao recinto da harpia, de onde tínhamos a vista para o morro da Harpia. Ainda na estrada recebemos via zap uma foto feita naquela manhã do grande guia e amigo Hudson Martins. Será que ela voltaria à tarde?! E no domingo?! Dá pra imaginar como foi a viagem de ida...

Depois de um bom tempo de muita ansiedade, por volta das 16 horas, tive a inenarrável sensação de contemplar a grande harpia, aquele ser mitológico com cabeça de mulher e corpo de abutre, fazer uma apoteótica aparição! A visão que tive foi um magnífico quadro, pois quando olhei para o morro ela estava sobrevoando o mesmo numa posição como se estivesse em pé, claramente se exibindo. Em ato reflexo fui ao visor da câmera para registrá-la (o observador sempre perde para o fotógrafo nessas horas). Mas naquele breve instante ficou claro o porquê do seu nome.

Aquele bicho está em outro patamar! Acostumados a observar urubus e gaviões sobrevoando nossas matas, quando vemos uma harpia... a coisa muda de figura radicalmente. A referência de tamanho que temos das outras aves realmente torna a observação de uma harpia algo bastante impactante. Seu incomparável porte nos dá a impressão de ser uma pessoa com asas.  Parece que estamos vendo algo sobrenatural! Parece realmente que estamos diante daquela entidade mitológica, vivenciando um sonho real.

A Harpia é como uma onça-pintada do dossel, reina absoluta sobre a floresta


Depois de um bom tempo e de algumas vocalizações, a harpia voou para uma árvore no mesmo morro mas mais distante, matando nossas esperanças de um sobrevoo. Ela pernoitou ali pois pudemos observá-la até a última luminosidade do dia. E mesmo sob o manto escuro da noite ouvimos, surpreendidos, sua vocalização.

Provavelmente a harpia pernoitou nessa árvore emergente


Acordamos às 5 e meia no dia seguinte e para nosso alívio logo escutamos Sua Majestade. A serração estava fortíssima e mesmo a chegada do sol não foi suficiente para vencê-la.


A vocalização estava bem mais próxima, mas não se via nada no morro da Harpia


À esquerda o recinto das harpias, ao fundo e sob neblina o morro da Harpia

Como o sr. Almir nos relatou, nossa rainha sempre chegava pelo seu morro e depois de um tempo sobrevoava o recinto das harpias, pousando nuns eucaliptos que ficavam em outro morro atrás do recinto. Depois de algum tempo retornava ao ponto de partida, sobrevoando novamente o zoo.

Sabendo disso sugeri ficarmos em um local para tentar registrá-la num ângulo mais interessante, pegando seu voo mais de perfil. Mas as horas passavam e mesmo com o sol já um tanto alto a serração não se dissipava. Foi quando notei que o macho do recinto estava olhando fixamente para os eucaliptos. Sem sucesso tentei ver alguma coisa de onde estava. Logo em seguida, o Maurício (aquele mesmo, o pé-quente que viu a harpia pela primeira vez) nos informou que ela estava pousada num dos eucaliptos. Provavelmente a forte serração impossibilitou nossa observação quando ela atravessou o vale (lembrei-me que o sr. Almir havia relatado que tal fato era comum).

Com o coração na boca fomos ligeiros para outro ponto onde tínhamos uma melhor visão dos eucaliptos.

E lá estava ela, no alto de um grande eucalipto, fazendo pose para um dos seus maiores admiradores!

Cena incomum, uma harpia "sentada" num eucalipto.
Interessante destacar as marcas no galho, provavelmente feitas por suas poderosas garras ao pousar e/ou decolar

Agradeci demais e aproveito aqui pra agradecer novamente o grande Maurício, gente finíssima, que foi imprescindível para nosso sucesso nessa empreitada. Muito obrigado mesmo Maurício!

Fotograficamente falando, meu objetivo principal era conseguir uma boa foto dela voando. São raras fotos assim. Podemos elencar um conjunto de fatores que dificultam conseguir uma boa foto de uma harpia voando. Por exemplo temos questões relacionadas com a biologia da espécie, seu habitat, a própria raridade e dificuldade de detecção, entre outras.

Mas essa situação única no mundo é um prato cheio para nós, fotógrafos de aves. Ali temos todas as condições favoráveis. Sabemos o horário, o local e temos uma grande área aberta, onde a magnífica águia se lança com suas grandes e largas asas, atravessando o vale em voo planado, como uma "bruja", deixando para trás um arrebatador feitiço que não tem fim.




Para saber mais sobre a espécie: http://www.avesderapinabrasil.com/harpia_harpyja.htm

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Espinhaço Épico - Grand Finale

Épico, conforme um dicionário virtual, significa: "Acontecimento histórico grandioso e dramático, que implica em alguma mudança histórica"

Tudo começou com uma feliz coincidência, dezessete de agosto de 2015.

Era só mais um melancólico começo de segunda-feira, até receber uma mensagem do grande ornitólogo e amigo Wagner Nogueira perguntando-me onde estava. Na hora já me veio à mente que o Wagner deveria estar aqui, no Rio, mas não poderia imaginar que aquela mensagem me proporcionaria algo único em minha vida!

Para minha sorte estava trabalhando no Galeão (o que nem sempre acontece) e o Wagner havia acabado de desembarcar para um trabalho no interior do Estado. Ele ficaria algumas poucas horas aguardando um colega que chegaria em outro voo.

Pra variar falávamos sobre pássaros, aves, até que de repente o Wagner exclama: João, você não imagina o que tenho aqui!

Caramba... para o Wagner, que é um poço de serenidade, acostumado com tudo quanto é tipo de bicho, fazer aquele mistério... A adrenalina já rolou solta! Devia ser algo do naipe de um ET ou fantasma!

Não tenho palavras para agradecer a confiança deste meu grande amigo, verdadeiro irmão, Wagner Nogueira.

Graças a ele experimentei um daqueles momentos mágicos que faz a vida valer a pena! Tive o imensurável privilégio de conhecer e registrar uma raríssima joia! Mais rara que qualquer outra já encontrada em todo o rico, precioso Espinhaço.

Para vocês terem ideia, até então, somente cerca de dez seres humanos haviam colocado os olhos em um espécime vivo! Não havia sequer fotos! Só a conhecia por ilustrações que, aliás, não faziam jus à sua beleza singular.


Eternos segundos até que enfim o Wagner me mostra a foto! Foi paixão à primeira vista!

Com as passagens compradas para o norte mineiro, um misto de ansiedade, deslumbramento e medo não me deixou dormir (literalmente!) nas duas noites seguintes àquela revelação!

Uma espécie com toda sua história de raridade, praticamente uma lenda, e ainda de uma beleza ímpar?! Não há como não se apaixonar! Assim como não temer pelo seu futuro...

Se os olhos são a janela da alma, os desta ave têm muito a dizer...

Eles são transcendentais, únicos! Contrastam maravilhosamente com a plumagem castanho-avermelhada e combinam incrivelmente com um azul metálico que caprichosamente iridesce em suas asas. Perdoem-me pelo excesso de "mentes", mas o bicho é excepcionalmente fantástico!!!

Ah, aqueles olhos... tocam fundo a quem os contempla, num misto de maravilhamento e temor perante o iminente perigo de extinção que os ronda.

Acreditava-se até que pudessem não mais existir! O último registro documentado foi há 75 anos! Um espécime coletado que, sem vida, perde seu maior encanto.


                                                                            ...


Passadas poucas e intermináveis semanas lá fomos nós, nesta que foi a expedição mais importante da minha vida, rumo ao mais longínquo Espinhaço, à procura de outras de sua espécie.

Foram mais de 1300 km voando(no meu caso), 2350 km de carro(o Wagner ainda mais, 3200 km) e exatos 56,3 km a pé!

A despeito de conhecermos seu micro-habitat e sua vocalização (excelentemente gravada pelo Wagner), apesar de todo nosso esforço e dos fortes indícios (relato de avistamento por ornitólogos que trabalharam nessa região e mesmo micro-habitat)... infelizmente não obtivemos sucesso (quando estávamos de partida ficamos sabendo que um incêndio devastara toda a região uns dois anos antes).

Mas o que importa, de fato, é que a descoberta do iluminado ornitólogo Rafael Bessa dá um novo ânimo à comunidade e uma nova esperança à espécie.

Com as excelentes gravações e a descoberta das especificidades de seu habitat, a esperança é que outras de sua espécie possam ser encontradas na imensidão do Espinhaço.

Minha esperança é que a (ex) provavelmente extinta rolinha-do-planalto(Columbina cyanopis) possa ressurgir como a rolinha-do-espinhaço, e, assim, mais motivos para se apaixonar as futuras gerações terão.

Columbina cyanopis reencontrada em Botumirim/MG, Espinhaço Central

O namoro das Columbinas
O display 



Mais de dois anos depois...


Novamente juntos numa expedição, eu e o Wagner viajávamos em busca do bacurau-do-são-francisco (conforme já relatado aqui no blog). Além de ser minha milésima espécie, ajudaria os irmãos Mello em seu novo "Guia de Aves do Sudeste", já que desconhecíamos uma foto que bem descrevesse a espécie.

Qual foi minha alegria quando o Wagner topou minha sugestão de voltarmos àquele lugar fantástico!!! Afinal nossa primeira parada ficava relativamente perto do paraíso que abrigava as últimas Columbina cyanopis conhecidas (apesar de mais de dois anos de buscas promovidas pelas instituições envolvidas na preservação da espécie, nenhuma outra foi encontrada).

A saudade daquela joia encrustada naquela paisagem paradisíaca era sem tamanho.

Dessa vez iria aproveitar para fazer umas fotos (mesmo que de celular) do maravilhoso campo rupestre onde elas sobrevivem. Da primeira vez que lá fui, estava tão embasbacado com aquele momento sem precedentes na minha vida que sequer fiz uma foto de recordação, meu foco era tentar registrar da melhor maneira possível a beleza singular daquela que era uma das espécies mais raras do mundo.





Foto: Wagner Nogueira


A época não estava boa para playback (ao que tudo indica elas só respondem durante a época da seca), mas foi o Wagner adentrar um pouco o campo rupestre e sua estrela logo brilhou, topando com um dos doze exemplares que ainda restam.

Por mais alguns inolvidáveis minutos pude desfrutar da presença daquela joia mineira, apreciando toda a beleza e a paz que a caracterizam.

Ficamos ali, ora fotografando, ora contemplando aquela criaturinha, tão bela quanto ingênua, tão tranquila quanto ameaçada.

VIDA LONGA À COLUMBINA!