quarta-feira, 5 de junho de 2019

Graças ao socó da OCA

Na costa verde do Rio de Janeiro, onde a serra desce ao mar, está uma das cidades mais fascinantes do Brasil, Paraty.

A cidade que respira natureza, história e cultura é para todos.

Para nós, birders, um paraíso de matas preservadas que vai de 0 a quase dois mil metros de muita biodiversidade. São mais de 450 espécies de aves catalogadas!

Em janeiro estive com a família numa de suas belas praias, ocasião que procurei, com o excelente guia Chicão e com a doce Cacá, o raríssimo e esquivo socó-boi-escuro (Tigrisoma fasciatum).

O Chicão havia dito que entraria em contato com o dono da pousada OCA (Observação Contemplativa de Aves) Paraty para podermos procurar o bicho lá, pois a frequência de avistamentos no local era grande. Conhecia a OCA Paraty pela internet, seus belos chalés integrados à natureza, e sabia que o foco era a observação de aves, mas não imaginava o que me esperava.

Quem nos recebeu foi o Marcos Perallta, o proprietário. Sua atenção e simpatia para conosco foi ímpar, e no final do intento, que não logrou êxito, ofereceu-nos uma cortesia para voltarmos na época que o bicho costuma ser visto cotidianamente na pousada.

Fiquei realmente tocado com sua generosidade e simpatia e, conforme combinado, voltei com uma vontade sem precedentes de registrar um lifer.

Com o multiartista Tavinho Moura e o grande Marcos Perallta na OCA Paraty
Foto: Sica


Se conhecemos o homem por suas obras, o Marcos, além de um espírito elevado, é um grande ecologista! Sua pousada é um modelo de sustentabilidade!

Do reflorestamento, ao uso de materiais recicláveis e à compostagem, o meio ambiente é sempre prioridade na sua gestão, como vocês podem conferir aqui no site da OCA Paraty.

Mesmo não sendo um nativo, valoriza os paratienses, decorando sua bela pousada com artesanato local, além de valorizar o trabalhador da terra, mesmo sofrendo "prejuízos". Só uma pessoa muito evoluída coloca o ser humano acima dos bens materiais e a ética acima da ambição (quem conhece o Marcos sabe do que estou falando).


Acordar com uma visão dessas é indescritível! E o que dizer dos araçaris-banana que todos os dias nos chamam pra passarinhar?

Espaçosos, charmosos e integrados à exuberante Mata Atlântica, os 3 chalés da pousada são um luxo
Foto: Janine


A localização da pousada é privilegiadíssima! A Mata Atlântica e o rio encachoeirado (habitat de T. fasciatum) fornecem a música ambiente ideal para quem busca paz de espírito.

Dormimos com o relaxante som das águas e acordamos com o canto mais bonito que já ouvi de um sabiá-laranjeira (as aves também tem uma espécie de dialeto).

Logo aquele melodioso solo se misturou a uma grande orquestra e começamos a ouvir sons que nunca ouvimos antes. Quem é do ramo sabe o que isso desperta na gente...

Aqui vale um parênteses: quem redescobriu o socó-boi-escuro no estado do Rio de Janeiro, justamente na OCA Paraty, foi o Marcos Perallta. Como diz o meu "parça" Tavinho, assombração sabe pra quem aparece. Conforme nos foi informado, esse socó não era visto no Rio de Janeiro desde 1890!!!

Tínhamos todo o sábado e o domingo de manhã para fotografarmos o raro socó (essa era a minha quinta tentativa, foram duas em Iporanga/SP, uma em Pirenópolis/GO e a última supracitada).

O domingo foi chuvoso e a hora que o bicho apareceu no sábado (por volta das 15 horas), não estávamos na pousada (um lastimável vacilo meu). Mas eu me conheço, nenhum colírio resolve, o sangue nos olhos agora só vai passar quando voltar lá e fotografá-lo, o que será em breve e em mais um dos meus insanos "bate-e-volta"!

Registro que o Marcos fez com uma compacta durante nossa ausência
Além de raro e esquivo, o socó-boi-escuro camufla-se muito bem

Um zoom pra ajudar quem não conseguiu achar o bicho


Bem amigos, mesmo com pouco tempo e focado em um objetivo, deixo aqui uma singela amostra da bela e riquíssima avifauna que encontramos na pousada OCA Paraty e em suas imediações:

Sanhaçu-de-encontro-azul


Saíra-militar ou saíra-lenço

Tiê-sangue fêmea



Sabiá-una

Fêmea de cuspidor-de-máscara-preta, espécie muito comum na pousada

Esse biguá quase me matou do coração!

A belíssima garça-azul fotografada depois de um excelente almoço no centro histórico

Não só as aves encontram abrigo na OCA, do chalé flagrei essa família de micos


Bem pessoal, não é todo dia que a gente conhece uma pessoa do bem! Só por esse motivo já valeria uma visita à sensacional OCA Paraty, uma pousada criada para acolher birders da melhor maneira possível e que acredito ser o melhor lugar do Brasil para observar o raríssimo e esquivo socó-boi-escuro (na alta temporada dele na região, de maio/junho a agosto/setembro, fora das condições delicadas de um ninho).

A consideração que o Marcos tem pelos membros de nossa comunidade é outra grande atração. Ele valoriza de coração todo observador e muito se satisfaz em poder nos proporcionar aquela felicidade de encontrar o bicho querido. O seu trabalho pelo incremento do birdwatching em Paraty também é promissor e digno de aplausos, conte comigo meu amigo!

O incansável Marcos, sempre disposto a ajudar


Ainda não foi dessa vez que encontrei o raro socó, mas acabei encontrando algo muito mais valioso, um grande amigo!


Gratidão, meu irmão!



quarta-feira, 29 de maio de 2019

Outras estrelas do Festival, parte final

Quando se pensa em passarinho, o que se passa na nossa cabeça? Um melodioso canto sobre uma árvore ou um voo num belo céu azul, certo? Talvez, se não levarmos em conta que o inusitado está sempre presente nos domínios da Natureza.

O desejo de fotografar nossas aves levou-me a conhecer um gênero fascinante, "passarinhos" com "alma" de ratinhos, algo que nunca havia imaginado existir. 


De fato, antes de me embrenhar nesse fantástico mundo, se conseguisse ver alguma espécie do gênero Scytalopus (tapaculos, macuquinhos), certamente confundiria com um pequeno mamífero. 



São do tamanho de camundongos e agem como tal, movendo-se rapidamente sobre a serrapilheira. No chão escuro e embrenhado da floresta, dificilmente conseguimos identificar mais que um pequeno vulto passando. 

Seu voo é raríssimo! Em condições normais dificilmente veremos um Scytalopus voando. Geralmente o fazem quando tem que atravessar pequenas áreas abertas, como trilhas. O som que eles emitem pode até passar por o de algum inseto, notas curtas repetidas a exaustão, como podem conferir no link: Vocalização tapaculo-ferreirinho

De fato, as espécies do gênero Scytalopus estão entre as mais difíceis de fotografar, o que torna seu registro ainda mais emocionante, verdadeiro troféu para qualquer fotógrafo de natureza.


Um dos mais desejados, endêmico do sul do Brasil e de Missiones, na Argentina, o tapaculo-ferreirinho (Scytalopus pachecoi), assim como os pedreiros, pareceu-me idêntico ao seu congênere, que também ocorre na serra do Cipó, o tapaculo-serrano (Scytalopus petrophilus). 

Achava que seria o bicho mais casca-grossa da viagem. Ledo engano... 

Certamente ficou entre os três (só no terceiro dia conseguimos fotografá-lo), mas outras duas espécies totalmente desconhecidas pra mim surpreenderam e ficaram para uma próxima vez: o tio-tio e o cisqueiro.

Agradeço o amigo Rodrigo Quadros pelo tratamento da foto 



Momento tapaculo Foto: Fernando Farias


No terceiro dia ele deu show, subindo e vocalizando nesse poleiro (foto sem crop)


A meteorologia e a época não eram das melhores, mas São Pedro mais uma vez deu uma super força e mesmo com pouca resposta ao playback, a viagem foi um sucesso! Oito lifers bem registrados e outros bichos que há muito queria fazer boas fotos, como foi o caso do sanhaçu-de-fogo. 

Picumnus nebulosus, outro lifer sulino


Só achamos essa fêmea do beija-flor-de-topete-azul, que como o futuro pinto-do-mato-do-sul, tem no sul de SP o divisor do seu congênere

Bem pessoal, com esses três fechamos os oito lifers dessa viagem. 

Despeço-me dos caros amigos leitores com mais alguns registros do inesquecível Festival do Papagaio-charão, e até a próxima, que já está aí, em busca das raridades de Paraty, com os grandes amigos Tavinho Moura, Sica e Marcos Peralta, da maravilhosa pousada OCA Paraty.

Uma joia muito encontrada no Sul, a saíra-preciosa (Tangara preciosa)


Saíra-preciosa fêmea


Sanhaçu-de-fogo, sou fã


Sanhaçu-de-fogo fêmea




Arapaçu-escamado-do-sul


O pica-pau-amarelo do grande Monteiro Lobato


O graxaim do seu Fernando
A bela curicaca




Carrapateiro trabalhando


A linda borralhara-assobiadora




A grande estrela do Festival


sábado, 25 de maio de 2019

Outras estrelas do Festival, primeira parte

Viajar para uma região desconhecida significa, pra bom entendedor, conhecer aves desconhecidas.

Esse é um dos grandes baratos do birdwatching: o novo, o imprevisível. Boa saída ao "mesmicismo" dominante.

À medida que submergimos nesse novo mundo, o "espírito caçador" vem à tona, enquanto os problemas vão ficando para trás.

Borralhara-assobiadora (Mackenziaena leachii)


É como se realizássemos uma meditação realmente transcendental, cujo foco são as aves, a Natureza.


Sanhaçu-de-fogo (Piranga flava)

Fêmea


Para nós, transcendência; para o mundo, imagens que revelam a beleza e a diversidade muitas vezes ignoradas, conhecimento do que temos a perder se não preservarmos o pouco que nos resta.

Raposa-do-campo (Lycalopex gymnocercus), com um pouco de sorte, entre uma ave e outra, encontramos mamíferos

Além da jaritataca, que não conseguimos fotografar, os graxains do seu Fernando, dono da pousada referência para birders em Urupema, a Rio dos Touros, deram show.

Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), conhecido localmente como graxaim, convidado especial da Eco Pousada Rio dos Touros


A cada viagem os conhecimentos adquiridos vão se entrelaçando com os novos, aumentando, progressivamente, nossa admiração, a capacidade mesmo de meditar, ante a perfeição e a inteligência da Natureza.

Papagaio-charão (Amazona pretrei)


Forma-se então um círculo virtuoso. Saudável dependência de contato íntimo com a Natureza, cujos benefícios já foram comprovados por cientistas japoneses.

"Banho de floresta", assim batizaram a miraculosa imersão.

Mata nebulosa da serra catarinense (foto Bruno Dinucci)
Clima fresco, sem mosquitos... o paraíso


Sanhaçu-frade (Stephanophorus diadematus)


Foi muito interessante encontrar o pedreiro (Cinclodes pabsti), endemismo das serras gaúcha e catarinense, e não identificar qualquer diferença com o pedreiro-do-espinhaço (Cinclodes espinhacensis), festejado super endemismo que atrai birders aos confins da serra do Cipó (onde ocorre em uma área de menos de quinhentos km²!), a mais de mil quilômetros ao norte.

Até 2012 tratava-se da mesma espécie.

Pedreiro (Cinclodes pabsti) na fazenda

Pedreiro a mais de 1500 m de altitude

A biogeografia é uma matéria realmente fascinante.

Algumas espécies atravessam continentes, outras se isolam em pequenas áreas.

A variedade de vocações e suas origens na evolução dos seres, desde as primeiras penas que apareceram nos dinossauros, é algo instigante. Acaso e adaptabilidade seriam explicações suficientes?


Chupa-dente (Conopophaga lineata)


Bico-grosso (Saltator maxillosus)


Curicaca (Theristicus caudatus)





Um dos pontos altos da viagem ficou por conta do pinto-do-mato-do-sul, possível nome popular dessa futura nova espécie.

Guardadas as devidas proporções, é o mesmo caso do pedreiro: duas populações do que se imaginava a mesma espécie, divididas, nesse caso, por uma barreira geográfica localizada no sul de SP, como mostra o mapa de registros da sp. no Wikiaves.






"Pinto-do-mato-do-sul (Hylopezus pintoi)"

O Fernando encantou esse daí! Disse inclusive o caminho por onde chegaria ao palco da apresentação. Lembram da tal imprevisibilidade? Toda regra tem exceção, e nesse caso, para nossa felicidade.

Na intimidade de um fantasminha 


A corujinha endêmica do sul do Brasil e países vizinhos nos proporcionou uma das melhores "caçadas" da viagem!

Logo no primeiro dia saímos atrás dela, aproveitando a estiagem, já que a previsão não era das melhores.

Paramos em um ponto de ocorrência e seguimos o protocolo. Estava ventando bastante, nenhuma resposta. Partimos pro jantar na esperança de que na volta o vento parasse. Vento não combina com corujada.

E mais uma vez São Pedro nos ajudou.

Sem vento, a sonhada resposta agitou a noite escura.

Festejamos o som da esperança, pois tudo ainda era só expectativa. Já tive outras experiências frustrantes com corujas. Ouvi-las não significa fotografá-las.

O tempo passava. O som se aproximou um pouco mas estancou em distância fora de nosso alcance.  Outro indivíduo também respondeu distante, alimentando um misto de euforia e apreensão. Então  me lembrei das cinco vezes que tentei fotografar o caburé-acanelado. Só consegui graças ao irmão Wagner Nogueira que se embrenhou atrás do som que também não se movia.

"Vamos atrás dela pessoal!!!" Todos concordaram animados!

No breu da noite, pulamos a cerca no final da subida do barranco, atravessamos o mato seguindo o pio que permanecia parado. Estávamos convictos de que se a gente não a encontrasse, ela não nos encontraria. O som, cada vez mais próximo, mas onde estava o bicho?!

Havia uma brenha daquelas! Pensei, o bicho só pode estar ali, por isso não estamos achando. Demos a volta na brenha e lá estava ela, na altura dos olhos e a poucos metros!!! E permaneceu ali por um bom tempo, mansa...

Corujinha-do-sul (Megascops sanctaecatarinae)
Com o coração na boca!


Grimpeirinho (Leptasthenura striolata), outro festejado lifer




Noivinha-de-rabo-preto (Xolmis dominicana), ameaçado lifer que deu show, permitindo boa aproximação


A fêmea



Vou ficando por aqui para não me estender demais. Até a próxima e última parte das aves da serra catarinense.