quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Perfeito para passarinhar, perfeito para a família

Ave amigos!

Encravado no mais antigo Parque Nacional do país, o de Itatiaia, localizado na exuberante serra da Mantiqueira, o hotel Donati reúne predicados que agradam vários tipos de perfis. Sem dúvida um lugar sensacional para nós, birdwatchers, passarmos uns dias com a família.

Conheci o hotel Donati em 2016, fotografando a tovaca-cantadora com o amigo e excelente guia Hudson Martins. Mas foi em julho desse ano que eu e minha família ficamos hospedados pela primeira vez neste maravilhoso hotel.

Monitores para a criançada; trilhas radicais, cachoeiras, para os jovens; piscina aquecida, sauna e aquele cafezinho junto a uma aconchegante lareira, para os adultos que querem relaxar. E, claro, muitas aves interessantes para nós, birdmaníacos.

Não preciso dizer que minha família ficou apaixonada pelo hotel. Os donos, Nalu e Duda, e sua adorável netinha, Sofia, nos acolheram como se da família fôssemos. Soma-se a isso toda a Natureza circundante, o estilo pitoresco dos recintos, a comida deliciosa, as aprazíveis áreas de lazer, os funcionários muito gentis, enfim, tudo tão maravilhoso que minha esposa sugeriu e todos retornamos felizes a esse paraíso nesse último feriado.

Catirumbavas e saíras-sete-cores comem na mão, numa inestimável intimidade com a Natureza

Veganos, alegrai-vos
Foto: Clarinha


Às aves!

Do lado do meu chalé, na borda da mata, havia muitas frutas silvestres, o que atraia várias espécies, como o raro e incrível pavó (Pyroderus scutatus), maior passarinho (passeriforme) do Brasil. Encontrei dois, consegui registro de um, o bicho é meio arisco.

Pavó

Os frutos da embaúba atraem uma infinidade de espécies, na foto um araçari-banana 

Caneleiro-de-chapéu-preto 


O trinca-ferro compunha a bela paisagem sonora do hotel

Jacuaçu, abundante e manso

Os macacos-prego encantam a criançada


Outra magnífica atração que está rolando no hotel é a floração da fruta-de-sabiá. Uma grande quantidade de beija-flores está fazendo a festa em vários pontos onde há essa planta. Mas em uma delas, em especial, havia o que para mim foi a maior atração do feriado (fiquei dois dias fotografando essa sp), um macho do sensacional topetinho-vermelho (Lophornis magnificus).

Minha experiência com o macho dessa espécie, nesses quase 9 anos fotografando nossa fauna alada, foi pífia. Um único e breve encontro em Ubatuba/SP, em 2013, que rendeu um único registro que nem de longe faz jus à magnificência dessa espécie.

Fêmea de topetinho-vermelho clicada há um ano no PARNA Itatiaia

Não sei explicar porque com a fêmea foi diferente. Consegui bem mais que dois encontros com boas fotos, aliás, as melhores foram realizadas no próprio Parque, comprovando ser um dos melhores lugares para registrar L. magnificus. 


O macho abrindo seu magnífico leque


Uma das espécies mais interessantes de se observar










Fruta-de-sabiá, banquete para duas estações


Outras espécies que consegui identificar somente nesse ponto: beija-flor-de-banda-branca, beija-flor-de-fronte-violeta, beija-flor-rubi, rabo-branco-pequeno, rabo-branco-de-garganta-rajada, beija-flor-de-peito-azul, beija-flor-de-papo-branco.





As rapinantes, minhas aves preferidas, também deram show. A primeira manhã começou com um gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) vocalizando às 6:30. Suspeito que haja algum ninho nas imediações.

Depois, de longe e com visão parcial, vi um bicho grande pousado numa araucária nos jardins do hotel. Como os jacuaçus são abundantes nos jardins, de pronto imaginei que fosse um. Caminhando mais um pouco em direção à araucária, a visão já me despertou grande euforia, "aquele rabão não é de jacu, só pode ser de tyrannus" pensei em voz alta! Apressei o passo para conseguir uma melhor visualização, e a euforia se transformou no grande prazer de reencontrar essa entidade da Natureza pousada mais uma vez, e praticamente do lado do meu chalé!

Momento que notei que era o pega-macaco


Melhor foto que consegui antes dele alçar voo


Pude observar dois tyrannus todos os dias, fazendo display e vocalizando bastante, o que reforçou minha ideia de estarem com ninho por perto, até mesmo porque estamos no período reprodutivo.



Numa outra situação, estava fotografando um deles pousado enquanto um gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) me sobrevoava. O céu estava pra eles!

Leptodon cayanensis


Outra águia-florestal que me proporcionou um encontro emocionante foi o raro e incrível gavião-pato (Spizaetus melanoleucus).

Primeiro ouvi uma vocalização bem distante que julguei ser de tyrannus. Mas notei que a cor era clara, então, através da lente, tive a satisfação de identificar o raro rapinante. Enquanto ainda o fotografava, escutei outra vocalização mais próxima, outro gavião-pato! Essa espécie vocaliza somente no período reprodutivo.

Particularmente nunca tinha ouvido aquela vocalização, que é muito interessante por sinal.

Gavião-pato vocalizando

Outro encontro fantástico foi com o misterioso falcão-caburé (Micrastur ruficollis). Já era quase meio dia quando vocalizou. Essa espécie normalmente vocaliza na alvorada ou no crepúsculo, mas estamos no período de reprodução das aves de rapina. Então, após a transformação em monstro do pântano, adentrei a mata.

No primeiro toque do playback o bicho chegou furioso, pousando a poucos metros de mim e fazendo sua vocalização mais louca! Nem tentei gravar porque a ideia era ficar o mais imóvel possível, na esperança de que ele se deslocasse para um local "limpo", fora da brenha, o que não aconteceu. Mesmo assim foi um momento inesquecível!

Bem amigos, fica a dica então: se você quer passarinhar num lugar top, desfrutando da companhia dos seus entes queridos, recomendo fortemente o hotel Donati!

Importante ressaltar que em finais de semana, feriados e férias escolares há uma equipe de monitores com uma programação que valoriza o contato com a natureza, algo primordial para o desenvolvimento de nossas crianças (principalmente as que vivem em grandes cidades).

Outra dica bacana é relativa à fruta-de-sabiá. Como vocês viram, sua floração está atraindo uma grande quantidade de beija-flores.
E quando essas flores derem lugar a frutos maduros?! Dá pra imaginar a quantidade de aves que serão atraídas?! Soma-se a isso a grande possibilidade de fazer ótimas fotos, haja vista a baixa estatura e fotogenia dessa planta.

Certamente não perderemos essa oportunidade!



Nossos sinceros agradecimentos a Nalu, Duda, Sofia e a todos do hotel, pelo carinho e atenção. Esperamos revê-los o mais breve possível!


quarta-feira, 11 de julho de 2018

Um visitante andino

Ave!

Após o adiamento, por questões meteorológicas, da grande saída pelágica promovida pelo grande Igor Camacho neste último final de semana e aproveitando o habeas corpus já deferido, entrei em contato com o ornitólogo Fábio Schunck sobre a possibilidade de me apresentar o raríssimo visitante dos Andes que ele descobriu há duas semanas na represa de Guarapiranga, região sul da capital paulista, afinal São Paulo é muito mais perto que "los Andes".

O mergulhão-de-orelha-amarela (Podiceps occipitalis) é uma espécie que ocorre em diversos países andinos, mas muito raramente visita o Brasil, considerado por isso uma espécie vagante, ou seja, que ocorre irregularmente em nosso país.

Conforme dados que o Fábio me passou, o primeiro registro dessa espécie aqui no Brasil foi em 2002, em Santa Catarina. Em Guarapiranga foi visto pela primeira vez em 2006 (primeiro registro para o estado de São Paulo), pelo próprio Fábio, e só esse ano foi visto novamente. No Wikiaves só temos 4 cidades com registro dessa espécie, duas em SP, uma no PR e outra no RS.

Vale ressaltar que o Fabio faz um levantamento das aves dessa represa há 18 anos e conhece cada palmo dela.

Represa de Guarapiranga, refúgio natural para centenas de espécies numa das maiores cidades do mundo



Dois outros lifers me motivaram ainda mais a fazer essa viagem que foi praticamente um bate-e-volta. Saímos de carro no sábado à tarde e retornamos no domingo, eu e Clarinha, que aproveitou para turistar na cidade que não para nunca.

Já na chegada, próximo ao pier de onde saímos, essas tranquilas irerês nos deram as boas-vindas

Outro belo anatídeo que estava se alimentando tranquilamente no local, marreca-cricri

Se antes de embarcar já rolou esses dois belos registros... dá pra imaginar que as expectativas eram grandes!

A maior delas: será que o mergulhão ainda estava lá?! O Fábio o observou dois dias antes, mas sabendo que a saída das aves é sempre "à francesa"...

Incrível que apesar da represa ser gigante, o mergulhão-de-orelha-amarela é sempre encontrado numa área específica, o que facilita sobremaneira nosso trabalho. Assim fomos direto ao local, e, para nossa grande alegria, ele estava lá!

O bicho é arisco, com seus mergulhos não nos deixava aproximar muito, mas com um pouco de paciência e grande técnica do nosso guia e barqueiro, conseguimos revelar um pouco da beleza exótica desse festejado visitante.

Mergulhão-de-orelha-amarela, que conforme Clarinha, tem olhos que parecem enfeitiçar

Esse olho é real!


Após o encontro principal, seguimos explorando a rica biodiversidade local. Só de marrecas foram contabilizadas dez espécies! Entre elas dois lifers, o marrecão e a marreca-colhereira. Só a andorinha-chilena que não rolou, precisaríamos de muito mais tempo para tentar identificá-la em meio a centenas que sobrevoavam a represa.

Logo após o encontro com o ilustre viajor, o Fábio achou o marrecão.

Por ser muito caçado é bicho arisco.


Da esquerda pra direita, a fêmea, o jovem macho e o macho adulto

Em meio a caneleiras, frangos d'água e pernilongos, os olhos treinados do Fábio detectaram a marreca-colhereira


Além da atual estrela de Guarapiranga e desses dois lifers, a grande quantidade de aves garantiu alguns registros legais.


A grande quantidade de caramujos sustenta uma grande população de gaviões-caramujeiros

D. R. pesada:



Êh lá em casa...


Guarapiranga também guarda a maior maternidade de biguás da capital

Encontramos três espécies de íbis, coró-coró, caraúna e esse da foto, o tapicuru 


Além do mergulhão-de-orelha-amarela, encontramos o mergulhão-caçador e o sensacional mergulhão-grande.


Mergulhão-grande



Onde está Wally?


A curicaca seria um íbis?


Também encontramos as raras carquejas de bico amarelo e de bico manchado, mas para não me estender muito vou ficando por aqui, apesar da grande quantidade de fotos que fiz nessa saída.

A carqueja-de-bico-amarelo também é arisca


A represa de Guarapiranga me surpreendeu! E ela vive surpreendendo, disse Fábio, "o cara" da Guarapiranga, a quem agradeço imensamente. Também agradeço o Marco Silva, da SAVE, que organiza as excursões de observadores. Apesar de ter resolvido ir meio que em cima da hora, ambos foram muito solícitos e deram um jeito de me encaixar nessa saída (e olha que encaixar 1,90 m e 115 kg num barquinho não é fácil heim?). Valeu demais meus amigos!


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Ave Avistar!

Ave amigos!

Foi com grande surpresa e muita satisfação que recebi um convite do Guto Carvalho para palestrar na maior feira de observação de aves da América Latina, o Avistar, que ocorre anualmente em São Paulo há 13 anos.

Viajei no tempo e lembrei-me de que só depois de muitos anos já observando as rapinantes descobri que haviam outros malucos como eu. Espantado descobri que até havia um clube deles!!! Era o COA-RS, que me foi apresentado pelo primeiro livro de aves brasileiras que tive, o "Aves Silvestres do Rio Grande do Sul", do William Belton. Algum tempo depois descobri que havia um COA na minha terra também, o COA-MG (atualmente ECOAVIS), através do "Aves Silvestres de Minas Gerais" do hoje amigo Marco Antonio de Andrade, na época discípulo do grande Helmut Sick.

Tempo de solidão e obscuridade...

Era inviável entrar em contato com esses clubes. Não havia imagens da grande maioria das nossas aves de rapina. Nas bibliotecas os livros traziam fotos de animais do Velho Mundo. Da nossa fauna só os icônicos eram raramente encontrados, como a harpia.

Foram décadas de observação sem ninguém com quem aprender, compartilhar as experiências. Foi a Idade Média de minha vida ornitológica.

Mas então, com o advento da revolução digital, novas luzes clarearam aquele horizonte sombrio! Comunicação e conhecimentos irrestritos iniciaram uma nova era.

Um novo mundo surgiu, um mundo onde somos automaticamente atraídos para lugares conforme nossas afinidades. Convencionou-se, como de praxe, utilizar o nome em inglês para esses lugares. E o primeiro "site" para onde fui atraído nesse novo mundo foi o "Wiki Aves". Era um lugar onde extraterrestres como eu não se sentiam tão excêntricos, muito pelo contrário, ali era nosso habitat virtual.

Foi o período das grandes descobertas, um verdadeiro Renascimento!

A grande maioria das espécies, que até então eram verbetes em velhas enciclopédias, ganharam forma numa profusão de fotos de vários birders espalhados pelo país. Descobri o meu lugar favorito naquele novo mundo e, o mais importante, encontrei outros que compartilhavam daquela minha paixão.

Camila, Alessandro Abdala, Reinaldo (criador do Wiki Aves), Nara , Márcia e eu


Bem pessoal, quem diria que haveria uma feira nacional reunindo milhares de participantes e que aquele menino pequeno de Barbacena, digo, Rio Piracicaba, que saia solitário pro mato com binóculos a tira colo ainda estivesse nela, falando para pessoas de todo país?!

Trensão antes da palestra
Mas assim que os novos e velhos amigos começaram a chegar aquele trensão passou

Aí, já destravado, começaram vinte minutos de falazada ininterrupta
Agradeço o registro do grande fotógrafo e amigo Alessandro Abdala



Avistar é aquele lugar onde os perfis se corporificam e se "trombam". É o site nada virtual da nossa tribo. Todos falando a mesma língua, numa sinergia que faz a psicosfera do lugar a melhor possível.

Um dos raros ambientes populosos em que me sinto bem

Os amigos Marcia e Jorge Pavani, que faz um excelente trabalho de conscientização em Roraima


Com os brothers Clezio Kleske, Alessandro Abdala e Guilherme Serpa
Foto: Camila

Foram muitos melhores momentos (e quase não teve piores). Logo na chegada e com muita alegria percebi que a principal exposição de fotos do evento era a do meu grande amigo, premiado fotógrafo, professor e escritor Alessandro Abdala.


Eu e o Abdala com a premiada foto do urubu-rei, realizada em 2012 em nossa primeira e inesquecível expedição à Canastra, intitulada "Quando a chuva é uma aliada". 

O hotel do evento abrigou os palestrantes e muitos participantes. Dividi o quarto com um palestrante de peso, o ornitólogo André de Luca, que falou sobre um projeto muito legal, na Amazônia paraense. Foi um grande prazer conhecer pessoalmente esse fera da ornitologia, gente boa demais!

André de Luca, Ciro Albano e sua esposa, num happy hour no hotel

Um dos projetos apresentados no Avistar que mais me chamou a atenção e que recomendo bastante é a Expedição Fotográfica Serra do Amolar, realizada pelos amigos Thomaz Lipparelli e Marcelo Calazans. Sofisticação e Natureza lado a lado, por um valor que me surpreendeu positivamente. Com certeza será um empreendimento de sucesso e que muito irá somar ao ecoturismo brasileiro! Parabéns meus amigos!

Grande prazer também em rever o amigo João Marcos Rosa, depois de anos dos eventos de lançamento do livro "Harpia"(fui em dois), nossos últimos encontros. Adquiri minha primeira lente com ele. É uma pessoa que, apesar de ser uma das estrelas da fotografia de natureza no Brasil, é um exemplo de simplicidade e simpatia, demonstrando que dá pra ser "o cara" sem ter que empinar o nariz. Assisti também à sua palestra. Parabéns pelo maravilhoso trabalho com as araras de Lear meu velho.

Foram muitos grandes momentos, os amigos bem sabem. A lista de encontros memoráveis foi grande demais por isso ficarei por aqui para não me estender demais.

Então é isso pessoal!

Avistar é mais do que um lugar para saber das novidades, encontrar velhos amigos, conhecer pessoalmente amigos virtuais e fazer novos. Avistar é a realização de um sonho! É saber que não estamos sozinhos e que tem pessoas que se interessam pelo que você ama.

Pena que, assim como nas passarinhadas, o tempo passa como as aves, e sempre saímos com aquela sensação que podíamos ter aproveitado muito mais.

Agradeço imensamente ao Guto Carvalho, pelo convite; à Márcia Carvalho, pela excelente companhia na viagem até SP; à Clarinha e D. Celi, pela grande ajuda na palestra; ao Alessandro Abdala, pelos ótimos registros; ao Wagner Nogueira, pelo apoio de sempre; ao Andre de Luca, pelo companheirismo; ao Luiz Ribenboim, pelas lembranças; à organização do evento, pela competência em lidar com as adversidades; e aos amigos, pelo carinho de sempre.

Vida longa ao Avistar!!!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Birdwatching e redes sociais


A convite da querida amiga Claudia Komesu resolvi escrever um pouco sobre um assunto que já andei matutando há um tempo atrás e que vai ao encontro do tema proposto. 
Hoje em dia não há como negar a grande influência das redes sociais na vida das pessoas. Graças à internet nunca estivemos tão conectados! E influenciados...
Vejamos... 
Nada é mais importante numa democracia que a opinião pública, ela dita os rumos de uma nação verdadeiramente democrática. É a opinião pública que diz quem será o governante de uma nação. Numa democracia madura os políticos se baseiam na opinião pública para legislar. 
Também sabemos que a propaganda exerce uma forte influência na formação da opinião pública. Alguém duvida da importância dos marqueteiros numa eleição? 
Recentemente um escândalo envolvendo o facebook comprovou o grande poder do marketing político nas redes sociais. 
Propaganda sempre foi a "alma do negócio", e quantas vezes já ouvimos "uma imagem vale mais que mil palavras".

Por mais talentoso o artista, a natureza é imbatível, e nós, fotógrafos, tentamos captar sua beleza 


Quer acabar com o meu dia? Compartilhe comigo o sofrimento daquelas pobres crianças sírias vítimas da estupidez humana. 
E quão deprimente é ver tanto lixo, de toda espécie, circulando na internet? 
As redes sociais podem te jogar pra baixo, podem te levantar, te instruir ou ludibriar, dar esperança ou desesperar, tudo depende do que você compartilha. Somos todos influenciáveis, uns mais, outros menos, mas todos somos, ao menos em nível subconsciencial.  
Todos já ouviram falar: nós somos o que consumimos. Se consumirmos muita gordura, ficaremos gordos, se consumirmos livros de filosofia, filosofaremos, se consumirmos lixo nas redes sociais certamente isso não fará bem para nossa mente.
Mas aonde quero chegar?
Não devemos menosprezar ou subestimar o compartilhamento de nossas fotos nas redes sociais. Tal compartilhamento certamente ultrapassa as fronteiras da vaidade humana. 
Muito além das curtidas que podem ou não massagear nossos egos, nossas fotos podem impactar o estado de espírito das pessoas e, creio eu, até influenciá-las em suas opiniões. 
Quantas vezes, desenrolando minha linha do tempo, me pego de saco cheio com tantos debates políticos apaixonados (que quase sempre são irracionais) ou entristecido com as misérias humanas, até que, em mais um curto movimento do indicador, contemplo, já com outro estado de espírito, uma bela foto de um bicho massa?

É possível passar incólume diante de fotos como essas?

Nessas horas a arte serve como um bálsamo para as agruras da ignorância humana que hodiernamente se escancaram na palma de nossa mão.
Um dia um amigo me contou que sempre que está estressado ou entristecido ele acessa o Faceaves (grupo no facebook que tem como lema "Conhecer para Preservar" e que conta com cerca de 22 mil internautas) e encontra alívio imediato nas belas fotos que os usuários cotidianamente postam. 
Relatos assim não são raros, recebo-os com certa frequência. E com muita satisfação! 
Outra vez recebi uma mensagem de um garoto de um país vizinho pedindo-me que nunca parasse de tirar fotos. Aquilo me comoveu e comprovou-me o que trago aqui hoje para reflexão. 
Nossas fotos são como sementes pulverizadas pelas redes sociais. Dependendo do terreno elas podem brotar como contemplação, prazer, conscientização, um despertar vocacional etc. 
Divulgando o que a Natureza tem de mais belo, nossas fotos são também imagens publicitárias em prol de sua preservação, pois não se tem consciência, sem ciência.
Enfim, você pode até plantá-las com objetivos egocêntricos, não importa, continue! Suas fotos têm vida própria, um grande potencial de gerar bons frutos e tornam as redes sociais um lugar muito melhor de se viver.

PS: óbvio que podemos e devemos fazer muito mais pela Natureza! O objetivo do texto foi incentivar a maior divulgação possível de nossas aves pelos birders, pois acredito que esse gesto simples, se multiplicado, aproveitando a força das redes sociais, é um mínimo que já pode fazer alguma diferença.

terça-feira, 8 de maio de 2018

O incrível caso da Harpia do Zoo Park da Montanha

Ave amigos!

Já ia iniciar esse post falando que essa viagem começou quando o grande amigo Justiniano Magnano mandou-me o incrível registro de uma harpia feito num zoológico! Mas, pensando melhor, essa é uma viagem que começou há muitos anos atrás...

Minha tia/irmã Helenita (ela é mais jovem do que eu) desenterrou um fóssil que, pelas suas estimativas, é datado de 1981, ou seja, quando este que vos escreve contava com quatro anos de idade. Ela fez até uma arte com ele e me presenteou. Gostei demais, muito obrigado tia Di!

Acreditem, é uma harpia


Daonde pode vir uma paixão assim? Que mesmo já a tendo encontrado 3 vezes (e mesmo que fossem 30) me fez viajar mais de mil km no intervalo de dois dias para reencontrá-la?
Já me fizeram essa pergunta. De concreto mesmo só posso dizer que essa paixão inexplicável me fez ser o que sou hoje, e estou muito feliz com isso.

A prática da observação de aves é muito mais do que se imagina, só quem a pratica sabe do que estou falando. Recentemente estudos mostram o bem que ela pode nos fazer, tanto no plano físico, quanto no mental/espiritual.

O Homem precisa urgentemente parar de destruir a Natureza. Precisa se reconectar com essa mãe zelosa e generosa. Mas, voltando à Vossa Majestade, sou um fiel súdito e sempre que puder estarei lá para venerá-la. Na verdade não tenho palavras para descrever a sensação que é encontrá-la livre na Natureza. É algo no mínimo transcendental!

Bem, chega de babação de ovo de harpia e vamos aos fatos!

Para quem não está por dentro, em março deste ano uma harpia foi vista numa mata que cerca o Zoo Park da Montanha, localizado na região serrana do Espírito Santo, atraída pelo casal de harpias do zoológico. Pelo Wikiaves, é o registro mais ao sul da praticamente única população brasileira dessa espécie na Mata Atlântica. Desde então, quase que cotidianamente (conforme conversa com o dono do Zoo, sr. Almir, gente finíssima, ela tem pintado cinco dias e tem sumido por dois) ela tem sido vista, e o que é melhor, com hora e local pré-definidos! Não podia perder uma oportunidade dessas...

Foi nessa "vibe" que propus ao grande ornitólogo Guilherme Serpa praticamente um bate-e-volta. Entre a nossa partida e nossa chegada aqui no Rio foram 36 horas, só de estrada 16, mas os momentos de êxtase valeram demais a pena!

Dando uma olhada nas imagens de satélite, vemos que no entorno do Zoo Park da Montanha há muitos fragmentos de Mata Atlântica, o que comprova que se cada proprietário de terras conservasse o mínimo legal de vegetação nativa poderíamos ter hoje uma situação ambiental muito mais favorável, preservando biodiversidade, recursos hídricos, clima e equilíbrio ecológico local (o q diminui a necessidade de insumos) etc. Só uma palavra explica a não observância das leis ambientais: ignorância. As leis ambientais foram feitas por especialistas da área e visam o bem de todos, inclusive daqueles que as ignoram.

Mesmo fragmentadas, as matas da região dão abrigo para a maior águia do mundo

Bem, chega de conscientização e voltemos aos fatos.

Minha referência no ES é o grande Justiniano Magnano, uma pessoa iluminada, um grande amigo! Então falei com ele sobre meu propósito. Com sua notável gentileza e generosidade prontificou-se não só para me receber em sua terra, como também para "desenrolar" nossa visita com o sr. Almir. Muita gratidão, magnânimo amigo!

Chegamos conforme previsto, por volta das 14 horas de sábado. Fomos muito bem recebidos pela sra. Maria Isabel que já foi nos enchendo de esperança contando alguns "causos" da festejada harpia do Zoo Park da Montanha. Eu era um poço de emoções: felicidade, esperança, ansiedade, com uma pitada de receio, afinal, na Natureza não há cartão de ponto.

Ficamos sabendo que quando a harpia vem à tarde, chega por volta das 16 horas e, independente do horário, sempre chega pelo mesmo local, um morro florestado localizado em frente ao zoo, que logo batizei como morro da Harpia.

Morro da Harpia

Também tivemos o prazer de conhecer o monitor e futuro ornitólogo Maurício, ele foi o sortudo que primeiro viu a harpia, na manhã do dia 03/03/18 (o sr. Almir nos disse que há 5 anos se sabe da presença desse bicho na região). Será que o grande Maurício tinha ideia da repercussão daquele seu avistamento?!

Birders de todo o ES, além do Rio e MG estão peregrinando até lá para venerar a rainha das matas brasileiras. A imprensa local já noticiou "a ave rara" que está movimentando a região. E o sr. Almir está fazendo um imprescindível trabalho de conscientização da população local, o que é digno de nossos aplausos.

Fomos então para o ponto tradicional, próximo ao recinto da harpia, de onde tínhamos a vista para o morro da Harpia. Ainda na estrada recebemos via zap uma foto feita naquela manhã do grande guia e amigo Hudson Martins. Será que ela voltaria à tarde?! E no domingo?! Dá pra imaginar como foi a viagem de ida...

Depois de um bom tempo de muita ansiedade, por volta das 16 horas, tive a inenarrável sensação de contemplar a grande harpia, aquele ser mitológico com cabeça de mulher e corpo de abutre, fazer uma apoteótica aparição! A visão que tive foi um magnífico quadro, pois quando olhei para o morro ela estava sobrevoando o mesmo numa posição como se estivesse em pé, claramente se exibindo. Em ato reflexo fui ao visor da câmera para registrá-la (o observador sempre perde para o fotógrafo nessas horas). Mas naquele breve instante ficou claro o porquê do seu nome.

Aquele bicho está em outro patamar! Acostumados a observar urubus e gaviões sobrevoando nossas matas, quando vemos uma harpia... a coisa muda de figura radicalmente. A referência de tamanho que temos das outras aves realmente torna a observação de uma harpia algo bastante impactante. Seu incomparável porte nos dá a impressão de ser uma pessoa com asas.  Parece que estamos vendo algo sobrenatural! Parece realmente que estamos diante daquela entidade mitológica, vivenciando um sonho real.

A Harpia é como uma onça-pintada do dossel, reina absoluta sobre a floresta


Depois de um bom tempo e de algumas vocalizações, a harpia voou para uma árvore no mesmo morro mas mais distante, matando nossas esperanças de um sobrevoo. Ela pernoitou ali pois pudemos observá-la até a última luminosidade do dia. E mesmo sob o manto escuro da noite ouvimos, surpreendidos, sua vocalização.

Provavelmente a harpia pernoitou nessa árvore emergente


Acordamos às 5 e meia no dia seguinte e para nosso alívio logo escutamos Sua Majestade. A serração estava fortíssima e mesmo a chegada do sol não foi suficiente para vencê-la.


A vocalização estava bem mais próxima, mas não se via nada no morro da Harpia


À esquerda o recinto das harpias, ao fundo e sob neblina o morro da Harpia

Como o sr. Almir nos relatou, nossa rainha sempre chegava pelo seu morro e depois de um tempo sobrevoava o recinto das harpias, pousando nuns eucaliptos que ficavam em outro morro atrás do recinto. Depois de algum tempo retornava ao ponto de partida, sobrevoando novamente o zoo.

Sabendo disso sugeri ficarmos em um local para tentar registrá-la num ângulo mais interessante, pegando seu voo mais de perfil. Mas as horas passavam e mesmo com o sol já um tanto alto a serração não se dissipava. Foi quando notei que o macho do recinto estava olhando fixamente para os eucaliptos. Sem sucesso tentei ver alguma coisa de onde estava. Logo em seguida, o Maurício (aquele mesmo, o pé-quente que viu a harpia pela primeira vez) nos informou que ela estava pousada num dos eucaliptos. Provavelmente a forte serração impossibilitou nossa observação quando ela atravessou o vale (lembrei-me que o sr. Almir havia relatado que tal fato era comum).

Com o coração na boca fomos ligeiros para outro ponto onde tínhamos uma melhor visão dos eucaliptos.

E lá estava ela, no alto de um grande eucalipto, fazendo pose para um dos seus maiores admiradores!

Cena incomum, uma harpia "sentada" num eucalipto.
Interessante destacar as marcas no galho, provavelmente feitas por suas poderosas garras ao pousar e/ou decolar

Agradeci demais e aproveito aqui pra agradecer novamente o grande Maurício, gente finíssima, que foi imprescindível para nosso sucesso nessa empreitada. Muito obrigado mesmo Maurício!

Fotograficamente falando, meu objetivo principal era conseguir uma boa foto dela voando. São raras fotos assim. Podemos elencar um conjunto de fatores que dificultam conseguir uma boa foto de uma harpia voando. Por exemplo temos questões relacionadas com a biologia da espécie, seu habitat, a própria raridade e dificuldade de detecção, entre outras.

Mas essa situação única no mundo é um prato cheio para nós, fotógrafos de aves. Ali temos todas as condições favoráveis. Sabemos o horário, o local e temos uma grande área aberta, onde a magnífica águia se lança com suas grandes e largas asas, atravessando o vale em voo planado, como uma "bruja", deixando para trás um arrebatador feitiço que não tem fim.




Para saber mais sobre a espécie: http://www.avesderapinabrasil.com/harpia_harpyja.htm